MP investiga prefeito de São José por veto à jornalista
Quatro meses após uma polêmica que gerou um forte debate sobre liberdade de expressão, o Ministério Público do Estado de São Paulo decidiu instaurar um Inquérito Civil. O objetivo é investigar a exclusão da jornalista e escritora Milly Lacombe na 11ª edição da Festa Litero Musical do Vale do Paraíba (Flim), evento realizado em São José dos Campos.
A decisão do MP veio após receber várias denúncias que alegam um possível ato de censura e violação do direito ao acesso à cultura. O descontentamento começou após Milly Lacombe participar de um podcast, onde fez críticas contundentes ao que considera um modelo tradicional de família, expressões que rapidamente se tornaram virais.
O imbróglio teve início em julho de 2025, quando a jornalista participou de uma entrevista ao podcast “Louva a Deusa”. Durante o programa, Milly afirmou:
"Esse negócio de família tá f**** a gente. Família é um núcleo produtor de neurose. Essa família tradicional, branca, conservadora, brasileira. Gente, isso é um horror. É a base do fascismo. Falemos a verdade."Essa declaração gerou divergências entre grupos políticos na cidade.
Em setembro, prestes a participar da mesa de abertura da Flim, a presença de Milly foi colocada em cheque por políticos de oposição, incluindo o vereador Thomaz Henrique (PL). A situação complicou-se ainda mais quando um vídeo gravado pelo vereador Zé Luís, ao lado do prefeito Anderson Farias (PSD), revelou que o prefeito havia contatado o gestor do Parque Vicentina Aranha e decidido retirar Milly da programação da feira.
Durante a gravação, Anderson Farias declarou:
"Logo que você (Zé Luís) me levou esse assunto, imediatamente já liguei ao Vicentina Aranha, conversei com o doutor Aldo Zonzini... já foi decidido que nós não íamos mais trazê-la por causa dessas questões da postura dela."Essa fala foi um dos pontos centrais para a abertura do inquérito pelo MP, que entende haver evidências de que as decisões foram baseadas em convicções pessoais do prefeito, o que poderia caracterizar um ato de censura.
O promotor responsável pela investigação destacou a importância de preservar a pluralidade de vozes em eventos culturais que utilizam recursos públicos. Em uma entrevista posterior à Rede Vanguarda, Anderson Farias reafirmou a sua posição ao afirmar que
"nós não trazer pra um evento como esse da Flim algo que possa dividir."Essa justificativa gerou ainda mais controvérsia, especialmente entre os apoiadores de Milly Lacombe.
Após a retirada da jornalista, outros escritores decidiram se afastar do evento, provocando a adiamento da Flim, que foi remarcada para novembro daquele ano, sem a participação de Milly. O Ministério Público, ao questionar a Afac (entidade organizadora) e a prefeitura, recebeu a informação de que não houve veto formal, mas que a jornalista teria desistido devido a pressões e inseguranças geradas por críticas nas redes sociais.
Contudo, o MP encontrou contradições nas versões apresentadas pela prefeitura e pela Afac, levando-os a crer que o ato de remover Milly Lacombe causou um dano cultural à população, alterando a curadoria inicial do evento. O inquérito busca ouvir testemunhas, a própria jornalista e requisitar documentos que ajudem a esclarecer os fatos.
A cobertura desse caso destaca a importância de discutir o papel da liberdade de expressão em espaços públicos e os limites da gestão pública em relação ao discurso artístico e ideológico. O g1 tentou contato com a assessoria de imprensa da Prefeitura de São José dos Campos na noite de sexta-feira, mas não teve retorno sobre o caso.