Qualidade dos Cursos de Medicina em Questão
Dados recentes do Ministério da Educação (MEC) revelam uma preocupante realidade no ensino de Medicina no Brasil: 38% dos formandos de instituições privadas não atingem a qualificação mínima no Exame Nacional de Avaliação da Formação Médica (Enamed). Com 24.487 formandos inscritos em 2025, 9.489 não atingiram o patamar de proficiência, o que acende um alerta sobre a qualidade da formação dos futuros médicos no país.
A situação é ainda mais alarmante quando se observa que a maioria dos cursos mal avaliados surgiu após 2014, coincidentemente após a implementação da Lei do Mais Médicos em 2013. Especialistas apontam que essa legislação, embora visando suprir a carência de médicos em regiões carentes, também abriu as portas para a proliferação de cursos de baixa qualidade, impulsionados por decisões judiciais e falta de rigor técnico na sua autorização.
Os resultados do Enamed revelam que, dentre as instituições de ensino superior analisadas, 61% dos cursos de Medicina ofertados por faculdades privadas com fins lucrativos ficaram entre os níveis 1 e 2 em uma escala de 5, um desempenho classificado como insatisfatório pelo MEC. O exame avaliou 89.024 alunos, entre concluintes e estudantes de outros períodos.
Com base nos dados, das 107 instituições que participaram do exame, 87 ficaram nos níveis 1 e 2, sendo 28 com conceito mais baixo (1) — 17 dessas instituições são privadas e apenas uma pública, a Universidade Federal do Pará (UFPA). Cursos com esses conceitos enfrentam sanções severas, incluindo a proibição de abrir novas vagas e a suspensão em programas como o Fies.
Além disso, segundo um levantamento do Conselho Federal de Medicina (CFM), 56% dos cursos com conceitos 1 e 2 foram criados após 2014. Essa explosão na criação de faculdades, muitas vezes, se deu sem que padrões adequados de avaliação e infraestrutura fossem respeitados, resultando na formação de profissionais sem a qualificação necessária.
Professor Mário Scheffer, da Universidade de São Paulo (USP), complementa que das 24 universidades com conceito 1, 18 foram abertas após 2014, e 15 localizam-se em cidades com até 300 mil habitantes. Este fenômeno levanta questões sobre a capacidade dessas instituições de oferecerem estágios e experiências práticas adequadas aos seus alunos, fundamentais para a formação de um profissional de saúde competente.
Embora a Lei do Mais Médicos tenha como objetivo aumentar a presença de profissionais de saúde em áreas carentes, a realidade vivenciada nas universidades aponta para um descompasso entre a quantidade de cursos abertos e a qualidade da educação oferecida. Ligia Bahia, médica e professora da UFRJ, destaca que o programa tinha um "ovo da serpente" embutido — a possibilidade da abertura de faculdades com baixa qualidade de ensino.
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