Invasão de 1989 e a queda de Maduro: Reflexões de Panamá
A captura do ex-presidente venezuelano Nicolás Maduro por uma operação militar dos Estados Unidos reacendeu debates em Panamá sobre soberania e intervenção externa. Em um momento onde a história se entrelaça com a atualidade, os panamenhos se veem refletidos em um passado marcado pela intervenção americana de 1989.
No dia 3 de janeiro de 2026, enquanto o mundo tentava entender os meandros da prisão de Maduro, Panamá começou a reexaminar sua história com os Estados Unidos. A invasão de 1989, que teve como objetivo capturar o ditador Manuel Antonio Noriega, permanece viva na memória coletiva do país. Nesse contexto, a pergunta que surge é: até onde vai a soberania panamenha diante de ações dos EUA em sua região?
A invasão militar foi uma realidade que despertou lembranças dolorosas. Assim como em 1989, a operação atual contra Maduro provoca um debate sobre a autonomia de Panamá. O país, sem exército, tem um papel crucial como ponto estratégico no comércio global através do Canal do Panamá. Historicamente, as intervenções dos EUA na América Latina suscitam inquietações, pois um histórico de ações militares deixa uma marca que não desaparece facilmente.
Em uma declaração famosa, o ex-presidente dos Estados Unidos Donald Trump mencionou a importância do Canal do Panamá, insinuando a possibilidade de retomar o controle da via marítima. Isso gerou reações misturadas na população panamenha e levantou questionamentos sobre sua relação com os EUA e a realidade geopolítica que permeia a região.
Analistas políticos destacam que a situação atual reflete um padrão de repeição de estratégias dos EUA na América Latina. A captura de Maduro, embora disfarçada de uma operação voltada a restaurar a democracia, na verdade, é compreendida por muitos como uma manobra por interesses econômicos, especialmente no setor de petróleo venezuelano.
A inquietação da população reflete um medo maior. Uma pesquisa divulgada recentemente indica que sete em cada dez panamenhos acreditam que a intenção de Trump de recuperar o Canal é real, o que evidência um temor de um possível novo capítulo de intervenção militar.
No entanto, o governo panamenho, sob a liderança do presidente José Raúl Mulino, se posiciona favorável a uma abordagem diplomática e ao respeito da soberania nacional. Mesmo assim, a diáspora venezuelana no Panamá, que ultrapassa 58.000 pessoas, sente o peso da notícia, que trouxe à tona uma preocupação coletiva sobre as consequências de intervenções externas.
Cenário histórico e consequências contemporâneas
A comparação entre a queda de Maduro e a invasão de Panamá em 1989 é complexa. Enquanto a invasão americana de 1989 foi apoiada por um processo democrático e culminou em um compromisso de reconstrução, a atual situação na Venezuela não apresenta sinais similares de estabilidade ou um plano claro de transição.
A visão de que a operação na Venezuela pode estabelecer um precedente para novas intervenções nos países latino-americanos ecoa entre formuladores de opinião e analistas. A relação entre os Estados Unidos e Panamá, com seus traumas históricos, traz à tona as complexidades da política externa americana sob a administração Trump.
No embate entre intervenção e soberania, Panamá continua a navegar em águas turvas, refletindo uma preocupante incerteza sobre seu futuro e suas relações com potências estrangeiras. À medida que a história avança, questiona-se o papel de Panamá no tabuleiro de xadrez geopolítico da América Latina e até onde sua autonomia será respeitada.