Polêmica sobre cotas em Medicina em SC gera reações na política
A aprovação de Lumen Muller Lohn, major aposentada da Polícia Militar de Santa Catarina, no curso de Medicina da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) através de cotas para pessoas trans, desencadeou uma série de reações controversas no cenário político brasileiro.
Aos 45 anos, Lohn, que buscava uma nova profissão após a aposentadoria compulsória imposta pelo governador de Santa Catarina, Jorginho Mello (PL), em 2022, foi alvo das críticas de políticos bolsonaristas. A deputada federal Júlia Zanatta (PL-SC) protocolou uma representação no Ministério Público Federal (MPF), questionando a legalidade das cotas implementadas pela universidade.
A pauta em questão não é nova, mas ganhou destaque após um comentário do ex-deputado estadual Bruno Souza (PL-SC), que se manifestou contra o sistema de cotas da UFSC. A candidatura de Lumen para Medicina, aprovada em novembro, repercutiu apenas agora, evidenciando os desafios que enfrentou durante sua carreira na PM.
Ao longo de sua trajetória profissional, Lumen ficou afastada entre 2019 e 2022 devido a problemas de saúde mental e, ao voltar a trabalhar, não conseguiu a promoção desejada, o que ela atribui, em parte, a sua transição de gênero. "O fato de eu ter sido recusada na promoção é um dos gatilhos que levou à instalação do conselho que pediu minha aposentadoria", disse Lohn, em uma declaração sobre a discriminação vivida na corporação.
O processo de transferência para a reserva foi justificado pela Polícia Militar com alegações de inconstância laboral, citando que nos cinco anos anteriores à aposentadoria, Lumen havia ficado afastada por mais de mil dias. A corporação ainda alegou que uma punição disciplinar por transgressões funcionais contribuiu para a decisão de sua aposentadoria.
Na resposta a toda a polêmica, a UFSC defendeu as ações afirmativas, destacando que as cotas são uma forma de ampliar o acesso ao ensino superior para grupos historicamente marginalizados. Segundo a instituição, as vagas adicionais não comprometem o número total de ofertas dos cursos, mas sim ampliam as oportunidades de inclusão e diversidade.
A UFSC reafirma seu compromisso com a inclusão e a diversidade, definindo que esses valores são complementares à excelência acadêmica
Além disso, a UFSC ressaltou que as cotas estão respaldadas por legislações federais e por diretrizes do Conselho Universitário, que tem reconhecido sua validade juridicamente. A nota da universidade emerge em um contexto onde também foi sancionada uma nova lei em Santa Catarina que proíbe cotas raciais em universidades estaduais, gerando ainda mais controvérsia.
Essa decisão legislativa levantou preocupações entre educadores e ativistas. A deputada Luciane Carminatti (PT), presidente da Comissão de Educação e Cultura da Assembleia Legislativa de Santa Catarina, criticou a medida, apontando que a proibição de ações afirmativas prejudica a inclusão de estudantes carentes no ensino superior. O impacto dessa nova lei poderá ser profundo, afetando programas como o Fies e Prouni, que atualmente ajudam estudantes em condição de vulnerabilidade financeira.
O debate em torno do acesso à educação superior e das políticas de cotas continua polarizado no Brasil, refletindo as tensões sociais e políticas do país. As ações afirmativas, como as criadas pela UFSC, são vistas por alguns como essenciais para promover a igualdade de oportunidades, enquanto outros argumentam que essas políticas devem ser revistas ou até mesmo descontinuadas. À medida que os desdobramentos dessa polêmica se desenrolam, a luta por um sistema educacional mais justo permanece no centro da discussão pública.
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