A concentração de riqueza na Espanha: um alerta sobre desigualdades
A desigualdade econômica na Espanha tem se intensificado nos últimos anos. Dados recentes indicam que o patrimônio das maiores fortunas do país aumentou quatro vezes entre 2011 e 2023, gerando preocupações acentuadas sobre as disparidades sociais e econômicas.
Dois fatores são cruciais para compreender esse fenômeno: o número crescente de pessoas com alta riqueza e o aumento significativo de seu patrimônio. Entre 2011 e 2023, o número de declarantes do imposto sobre patrimônio subiu 75%, atingindo 228.000 indivíduos. Nesse mesmo período, a riqueza total declarada aumentou de cerca de 450 bilhões para 934 bilhões de euros, um crescimento de 107%.
Os dados fornecidos pela Agência Tributária da Espanha revelam ainda que o grupo mais rico, composto por pessoas que reportam ter mais de 30 milhões de euros, passou de 352 para 865, multiplicando o patrimônio de 37,3 bilhões para 146,8 bilhões de euros, refletindo um aumento médio de quase 170 milhões de euros por pessoa.
Números alarmantes
Esses números estão alinhados com as análises do Laboratório Mundial da Desigualdade, que posiciona a Espanha entre os países europeus com maior desigualdade patrimonial. Atualmente, o 10% mais rico detém mais de 57% da riqueza total, enquanto o 1% mais rico concentra cerca de um quarto do total, uma tendência que se intensificou desde a crise financeira.
Conforme aponta Nuria Badenes, pesquisadora em um Instituto de Estudos Fiscais, a polarização econômica está intimamente ligada ao aumento da desigualdade. "Esse fenômeno gera desconfiança nas instituições e alimenta posturas extremas na sociedade", afirmou.
Um estudo do Banco de Espanha, a Encuesta Financiera de las Familias (EFF), complementa essas observações. Embora a riqueza média dos lares tenha aumentado, a mediana, que indica a riqueza de um lar típico, tem crescido a um ritmo mais lento, revelando que os aumentos estão concentrados entre uma minoria.
Efeitos da crise financeira
Históricamente, o processo de acúmulo de riqueza no país foi acelerado após a crise financeira de 2008, como explica Olga Cantó, economista da Universidade de Alcalá. Para ela, a crise afetou desproporcionalmente as famílias de classe média, enquanto os mais ricos conseguiram diversificar seus investimentos, evitando perdas significativas.
A falta de acesso a moradia e a dificuldade em poupar entre as classes mais baixas também são questões que contribuíram para o aumento da desigualdade. Enquanto as famílias de rendas médias e baixas acumulam riqueza principalmente em seus imóveis, os mais ricos diversificam seus investimentos em ativos financeiros, empresariais e imóveis de diferentes tipos, um fator que perpetua essas disparidades econômicas.
Um cenário preocupante
As consequências da concentração de riqueza vão além das preocupações econômicas. A desigualdade patrimonial representa um desafio democrático, pois uma minoria controlando a maior parte dos recursos pode influenciar desproporcionalmente as decisões políticas e econômicas. Essa situação pode gerar um ciclo de vulnerabilidade social, já que a falta de ativos suficientes para sustentar consumo em períodos de crise fragiliza a estrutura social.
Com a crescente percepção da desigualdade, há um risco de que a insatisfação social aumente, alimentando tendências políticas extremas. Especialistas sugerem que o governo utilize ferramentas públicas para mitigar esses problemas, alertando que a falta de políticas tributárias adequadas pode permitir que a concentração de riqueza continue a crescer.
Assim, designers de políticas têm a responsabilidade de implementar medidas que diminuam a desigualdade, embora a realização de tais reformas ainda esteja em debate. Sem ações concretas, a tendência atual de acumulação de riqueza por uma minoria pode continuar, ampliando a divisão econômica e social no país.

