Crise hídrica em São Paulo acende alerta sobre abastecimento
Com chuvas abaixo da média, São Paulo depende da transposição de água do Rio Paraíba do Sul para sustentar o abastecimento hídrico, acendendo alertas no Sudeste. A crise remete ao conceito do "cobertor curto" da seca, com os reservatórios em níveis críticos. Especialistas destacam a necessidade de gestão integrada e reflorestamento, ressaltando que, apesar do cenário desafiador, a infraestrutura atual oferece mais segurança do que na crise de 2014.
A barragem Jaguari-Jacarei faz parte do sistema de barragens da Cantareira, que abastece 46% da região metropolitana de São Paulo. O abastecimento da Grande São Paulo pelo Sistema Cantareira atravessa o início de 2026 sustentado pela transferência de água entre bacias, compensando um déficit na captação local. Se dependesse apenas das chuvas em sua bacia natural, o sistema receberia cerca de 17 mil litros de água por segundo, volume inferior à saída de 23 mil litros necessária para o abastecimento público.
Esse descompasso diário é coberto pela transposição das águas da Bacia do Rio Paraíba do Sul, que é a espinha dorsal do abastecimento do Estado do Rio de Janeiro. Dados dos boletins da Agência Nacional de Águas (ANA) de 20 de janeiro demonstram a desproporção: a entrada natural de água no reservatório Jaguari foi de apenas 16 m³/s — cerca de 35% da média histórica, com 8,43 m³/s sendo desviados para o Cantareira. Isso significa que mais da metade da água que entra na cabeceira do sistema é transferida para o planalto paulista.
A operação ilustra um possível cenário de "cobertor curto" no Sudeste. Para evitar um colapso em São Paulo, o sistema exige uma retirada de água da cabeceira do rio federal, especialmente numa época em que a bacia doadora também enfrenta seu pior verão em anos. Com bloqueios atmosféricos prejudicando a chegada de chuvas volumosas, especialistas alertam que a falta de precipitações nas cabeceiras dos rios é preocupante.
— O pico da estação chuvosa deveria ser dezembro, janeiro e fevereiro, e janeiro já está terminando sem as chuvas esperadas. O que cai no Cantareira é pouco — explica José Marengo, coordenador-geral de Pesquisa e Desenvolvimento do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden).
O climatologista enfatiza que o sistema ainda sofre as consequências de uma redução de volume iniciada durante a crise de uma década atrás, exigindo cautela contínua. O cenário atual não indica colapso iminente, mas impõe um desafio de gestão em um contexto climatológico atípico.
Renato Traballi Veneziani, presidente do Comitê da Bacia Hidrográfica do Rio Paraíba do Sul, ressalta a gravidade da situação. Embora o volume transposto para São Paulo seja pequeno se comparado à vazão total do rio na foz, a atual deficiência nos reservatórios é alarmante.