A nova vanguarda de Tarsila do Amaral
Tarsila do Amaral, um ícone do modernismo brasileiro, vive através das redes sociais por meio de sua sobrinha-bisneta, Paola Montenegro. Com 30 anos e dedicada a preservar e difundir o legado da famosa pintora, Paola tem conquistado milhares de seguidores e gerado milhões de visualizações em plataformas como Instagram e TikTok. Desde 2023, ela administra a marca Tarsila S/A, que visa manter o patrimônio da artista acessível às novas gerações.
A conexão gerada por Paola entre a nova geração e a obra de Tarsila é notável. A artista, que nasceu em 1886, é reconhecida mundialmente por suas obras que retratam a cultura e a identidade brasileira. Se Tarsila estivesse viva hoje, provavelmente teria liderado uma revolução cultural na era digital, assim como fez em sua época ao lançar o "Manifesto Antropofágico", que defendia a restauração da identidade nacional através da arte. Paola busca continuar esse legado, utilizando as redes sociais para apresentar curiosidades sobre a vida e a obra da tia-bisavó.
“O trabalho no digital surgiu da necessidade de reposicionar e atualizar a forma como a obra de Tarsila é percebida”, explica Paola. “A internet é uma ferramenta essencial para a circulação da arte moderna no cotidiano contemporâneo.”
O "Manifesto Antropofágico" incentivava a valorização de influências estrangeiras, reinterpretando-as com um toque brasileiro. Tarsila, ao longo de sua vida, expressou suas raízes em obras que retratavam o interior paulista, com uma estética que refletia suas experiências na Europa. Segundo Paola, as obras de sua antepassada revelam um profundo carinho pela cultura do interior, não de forma folclórica, mas como memória e identidade cultural.
Na visão de Victor Corte Real, diretor da Faculdade de Artes Visuais da Pontifícia Universidade Católica (PUC), o trabalho de Paola se insere na midiatização da arte, que democratiza o acesso cultural. Ele afirma que “essa ‘deselitização’ é muito positiva, pois permite que mais pessoas se familiarizem com a arte, aumentando seu senso estético e crítico”.
O papel das redes sociais é crucial para que a obra de Tarsila alcance públicos que, caso contrário, poderiam estar distantes da arte. Paola enfatiza que, embora o digital não substitua a experiência de visitar museus, oferece uma primeira aproximação essencial. "A tecnologia pode democratizar o acesso à cultura em um país onde os museus ainda são inacessíveis para muitos", afirma.
Desde 2023, a marca Tarsila S/A também amplia seus licenciamentos, buscando atingir diferentes faixas etárias e econômicas. Produtos variando de joias a camisetas permitem que a obra de Tarsila esteja presente no cotidiano dos brasileiros, assim como Paola deseja que a imagem da artista esteja alinhada com sua história e importância cultural.
Porém, apesar do sucesso da Tarsila S/A, os herdeiros da artista ainda enfrentam uma disputa judicial relacionada ao legado. Antes de Paola, sua sobrinha-neta estava à frente da marca, mas uma série de desavenças levou à sua saída. A nova gestora se mostrou focada em modernizar processos e garantir a legitimidade das ações da companhia, sem se delongar sobre as disputas legais.
A obra de Tarsila do Amaral, que se tornará de domínio público em 2043, continua a inspirar e provocar discussões sobre identidade, arte e cultura no Brasil. O esforço de Paola em resurrecionar a conexão com o legado da artista é um exemplo claro do poder da arte na era digital.