Conflito comercial entre Equador e Colômbia afeta pacientes e agricultores
A crescente disputa comercial entre Equador e Colômbia está gerando repercussões significativas em diversos setores, especialmente na saúde e na agricultura. Com 70% dos insumos para diálise provenientes do país vizinho, o custo por sessão de tratamento teve um aumento alarmante, passando de R$ 100 para R$ 250, o que representa um valor inaceitável para a maioria dos pacientes.
Em meio a essa crise, Alejandro Solano, um paciente renal, compartilha a angústia que ele e muitos outros enfrentam. "A falta de insumos é iminente. Se não conseguirmos nosso tratamento, enfrentamos sérias complicações", afirmou Solano. O quadro no Equador é grave: 99% dos insumos médicos são importados, sendo 15% desse total oriundos da Colômbia, segundo a Associação Ecuatoriana de Distribuidores e Importadores de Produtos Médicos.
De acordo com Cristina Murgueitio, representante da associação, a implementação de uma tarifa de 30% foi difícil, mas o aumento para 50% é insustentável. "Já enfrentávamos um desvio de custo antes, e essa nova situação agrava o desabastecimento, principalmente em meio a uma dívida significativa do governo com as clínicas de diálise", explica ela.
A crise na saúde não é o único fator preocupante. A medida também prejudica o setor empresarial. Nos primeiros 15 dias de fevereiro de 2026, as importações da Colômbia caíram 73%, totalizando apenas R$ 10 milhões em comparação ao ano anterior. Essa queda coloca em risco aproximadamente 200.000 empregos, conforme relatou Maria Paz Jervis, presidente da Câmara de Indústrias e Produção, com um impacto direto em cerca de 2.000 empresas que dependem das importações colombianas.
Impacto no setor agrícola
O impacto se estende também ao setor agrícola, onde agricultores enfrentam novas dificuldades. Em Daule, uma das principais áreas produtoras de arroz do Equador, muitos hectares de cultivo permanecem sem um destino claro. Segundo Segundo Tello, um agricultor da região, as incertezas climáticas e as decisões governamentais atuais complicam ainda mais a situação. "Hoje, não plantamos apenas com a incerteza do clima, mas também com as decisões do governo", reflete Tello.
Marco Vinicio Ruiz, que gerencia uma piladora de arroz, também sente os efeitos dessa crise. Com os maquinários paralisados devido à falta de compradores, ele destaca que a expressão "a determinação oficial poderia acabar com nossas operações" agora é uma realidade. O setor de arroz, que produz cerca de 700.000 toneladas anualmente, também está angustiado, com 70.000 toneladas anteriormente destinadas à exportação para a Colômbia.
As declarações de José Luis García, do Comité de Defesa do Agricultor, foram categóricas: a tarifa de "segurança" proposta, ao invés de proteger as economias locais, abrirá brechas para o contrabando, com colombianos encontrando caminhos informais para adquirir arroz ecuatoriano.
A atual situação levanta preocupações sobre o futuro econômico da região, afetando as famílias que dependem da agricultura. Ruiz encerra com um alerta grave: "Se a situação continuar assim, famílias perderão suas fontes de renda, e as crianças deixarão de ir à escola, gerando uma onda de consequências negativas, como aumento da criminalidade".
Com o clima de tensão entre os países e a crescente insatisfação entre os grupos afetados, a esperança por uma resolução diplomática ainda é incerta. Enquanto isso, o presidente Ismael Noboa permanece firme nas suas posições, não demonstrando disposição para dialogar sobre a crise.