O crescimento da violência vicária no Brasil
O assassinato de duas crianças em Itumbiara, Goiás, trouxe à tona uma discussão premente sobre a "violência vicária" — um termo que descreve como homens utilizam os filhos para atingir suas ex-companheiras. Este caso em particular, marcado por tragédias pessoais e uma série de erros do sistema, reabriu feridas profundas em muitas mães que, como Janne Silva, viveram na pele a dor do feminicídio através de seus filhos.
Casos emblemáticos de violência vicária
A discussão sobre como a violência de gênero se manifesta de novas formas foi intensificada após o caso recente em Itumbiara. O crime chocou a sociedade: Thales Machado, ex-secretário de Governo da cidade, foi acusado de matar seus dois filhos, Miguel de 12 anos e Benício de 8, em um ataque planejado durante a separação da mãe, Sarah Araújo. Essa tragédia, para muitos, exemplifica a impunidade e a violência que as mulheres enfrentam muitas vezes em silêncio.
"Era uma tragédia anunciada", afirma Janne Silva, que experimentou uma cena semelhante em 2019, quando seu ex-marido, Mário Eduardo Paulino, matou seus filhos, Lucas e Mariah. Em um relato angustiante, Janne compartilha como, apesar das denúncias, seus apelos foram ignorados por autoridades que não levaram à sério os riscos que ela e suas crianças enfrentavam.
Um clamor por mudança legislativa
A Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados está discutindo incluir a violência vicária como uma nova categoria na Lei Maria da Penha, o que poderia representar um avanço significativo na proteção das mulheres. Após os eventos de Itumbiara, a urgência para a aprovação da proposta se tornou um clamor das mães, apoiadas por grupos de defesa dos direitos das mulheres como o Coletivo Mães na Luta.
O termo "violência vicária" foi cunhado pela psicóloga argentina Sonia Vaccaro e refere-se à violência que atinge as mulheres indiretamente, utilizando os filhos como armas. Atualmente, a Lei Maria da Penha contempla várias formas de violência contra a mulher, porém, sem o reconhecimento formal da violência vicária, muitas vítimas acabam sem amparo legal adequado.
O impacto emocional nas mães
Letícia Keiko, outra mãe que viveu a dor da violência vicária, contou sua experiência. Em 2023, seu ex-marido matou sua filha, Diana, de apenas 10 anos. Letícia, que já havia vivenciado uma escalada de violência por parte do ex, sentiu que o ato extremo foi uma forma de vingança. "Ele estava me matando há muitos anos, e naquele dia, além de matar minha filha, me matou também", desabafa.
Os relatos de Janne e Letícia evidenciam que a violência vicária não é apenas uma questão de crimes cometidos, mas também uma batalha silenciosa que muitas mulheres travam contra a negação de suas experiências por parte do sistema de justiça e da sociedade. A falta de resposta adequada das autoridades e o desdém perante as denúncias de abusos frequentes geram um ciclo de desesperança.
Desafios e a luta por justiça
As estatísticas são alarmantes: a cada ano, crescem os casos de violência contra a mulher no Brasil. Mães como Janne e Letícia são frequentemente desacreditadas e silenciadas, mesmo quando apresentam evidências de abusos claros. A especialista Vanessa Hacon ressalta que as mulheres são vistas como mentirosas e alienadoras quando tentam relatar situações de risco.
O panorama atual exige mudanças legislativas vigorosas e uma reavaliação da maneira como a sociedade trata a violência de gênero. O reconhecimento formal da violência vicária poderia transformar a realidade de muitas mulheres, proporcionando proteção e justiça. Contudo, essa ação ainda esbarra em um sistema que frequentemente falha em prestar a assistência necessária.
Conclusão
O caso de Itumbiara e outras situações similares sublinham a necessidade urgente de um reexame das leis e da resposta das autoridades às vítimas. O aumento na visibilidade da violência vicária e o apoio à sua inclusão na legislação podem ser o primeiro passo para que mães como Janne e Letícia encontrem a Justiça que merecem. À medida que o debate avança, é crucial que a sociedade se una para combater esta forma de violência, garantindo que as vozes das mães sejam ouvidas e respeitadas.

