Os riscos do consumo e armazenamento de tecidos humanos
Dentes, placentas e restos cirúrgicos estão sendo guardados e até mesmo consumidos. Veja o que a medicina diz sobre a segurança dessas ações.
Recentemente, o músico Elton John ganhou destaque ao usar colares feitos de suas próprias rótulas, após uma cirurgia de dupla substituição de joelho em 2024. Essa prática inusitada levanta uma séria questão sobre o que acontece com o tecido orgânico humano depois que ele sai do corpo e o porquê de algumas pessoas terem a vontade de guardá-lo.
Assim como Elton, muitas pessoas guardam partes do corpo como lembranças sentimentais. É comum que mães preservem dentes de leite ou o cordão umbilical de seus recém-nascidos. Entretanto, essa prática pode não ser tão inócua quanto parece. Os tecidos removidos cirurgicamente, por exemplo, são geralmente enviados a laboratórios para patologia, onde são testados para confirmar diagnósticos e, posteriormente, descartados como resíduo clínico devido aos riscos biológicos que podem acarretar.
A manipulação de tecidos humanos pode ser perigosa para profissionais de saúde, que estão expostos a vírus, como hepatite e HIV, especialmente em ambientes cirúrgicos ou de laboratório. Tais riscos se ampliam quando se considera que alguns tecidos podem abrigar micróbios e patógenos, o que leva a um questionamento sobre a segurança de preservar tais materiais.
No caso do cordão umbilical, embora muitos pais o guardem como recordação, é primordial que ele seja mantido limpo e seco. Se não houver cuidados adequados, o cordão pode provocar infecções como a onfalite, inflamação e infecção na região umbilical.
Um dos exemplos mais debatidos em relação à preservação de tecido humano é a placenta, que é expelida após o parto. Recentemente, cresceu o interesse pela prática da placentofagia, onde a placenta é consumida sob a crença de que isso traga benefícios à saúde da mãe. No entanto, estudos científicos não corroboram essas alegações, e a maioria dos nutrientes presentes na placenta já foi transferida para o bebê durante a gestação.
Existem várias formas de consumir a placenta, incluindo a mistura em smoothies, cozimento e encapsulamento – esta última é uma das abordagens mais comuns. Contudo, a placenta contém altos níveis de estrogênio, uma condição que pode elevar o risco de tromboembolismo, bem como a possibilidade de acumulação de metais pesados e outras substâncias potencialmente nocivas, pois atua como um filtro durante a gravidez.
Um caso notável foi reportado em 2017 pelo Centro de Controle e Prevenção de Doenças dos EUA (CDC), onde um bebê desenvolveu infecções devido ao consumo de cápsulas de placenta contaminadas. Embora existam processos para reduzir a carga bacteriana na preparação dessas cápsulas, não há garantias de que todas as bactérias sejam eliminadas. Além disso, consumir placenta crua apresenta riscos ainda maiores, como a exposição a bactérias perigosas.
Por fim, embora o consumo e a preservação de tecidos humanos possam parecer práticas inofensivas e sentimentais, os impactos médicos, biológicos e os riscos associados a essas ações são preocupantes. Assim, é vital que sejam realizados mais estudos para entender se a placentofagia realmente oferece benefícios relevantes à saúde. Seja na forma de adornos, memórias ou alimentos, é essencial ponderar sobre as implicações científicas que cercam essa temática.
Adam Taylor não presta consultoria, trabalha, possui ações ou recebe financiamento de qualquer empresa ou organização que poderia se beneficiar com a publicação deste artigo e não revelou nenhum vínculo relevante além de seu cargo acadêmico. *Adam Taylor é professor de Anatomia na Lancaster University. **Este texto foi publicado originalmente no site da The Conversation Brasil.