Retirada de apoio pelo Chile e a corrida pela sucessão de Guterres
Ao retirar o apoio à candidatura da ex-presidente Michelle Bachelet, o Governo do Chile elevou a discussão sobre a sucessão de António Guterres ao cargo de secretário-geral da ONU. Este processo envolve cinco candidatos, sendo que pela primeira vez na história da organização, há a possibilidade de que uma mulher assuma essa posição. Entre os concorrentes, três são mulheres: Michelle Bachelet, a política e economista costarriquenha Rebeca Grynspan e a argentina Virginia Gamba, que foi representante especial da ONU para crianças e conflitos armados. Os outros dois candidatos são o argentino Rafael Grossi, chefe da Agência Internacional de Energia Atômica, e Macky Sall, ex-presidente do Senegal, que representa a cota africana.
Motivações políticas e a diversidade de candidaturas
O governo do presidente conservador Gabriel Boric justificou a retirada do respaldo a Bachelet citando a concentração de candidaturas latino-americanas como um fator que torna a postulação da ex-presidente "inviável". Essa “dispersão de candidaturas” também fez parte do argumento apresentado pelo Ministério das Relações Exteriores do Chile. A candidatura de Bachelet, que tem um forte apelo político e social, foi inicialmente apresentada pelo governo anterior poucos dias antes da transição de poder. O apoio de Brasil e México é crucial para que sua campanha siga em frente, enquanto o Chile promete não apoiar outros candidatos em respeito ao legado de Bachelet.
Desafios enfrentados por Michelle Bachelet
Bachelet, de 74 anos, tem chances significativas de se tornar a primeira mulher latino-americana a ocupar a posição de secretário-geral da ONU, especialmente com a rotatividade geográfica que geralmente favorece candidatos da América Latina. Contudo, ela enfrenta dois adversários poderosos no Conselho de Segurança: a China, que se opôs a um relatório sobre violações de direitos da minoria uigur, e os Estados Unidos, que têm criticado suas posturas históricas sobre Israel e suas posições em relação ao aborto. Recentes declarações de legisladores republicanos nos EUA sugerem que Bachelet pode ser vista como uma candidata "inadequada" para o cargo devido ao que eles definem como uma "agenda extremista" em sua trajetória política.
Visões sobre o multilateralismo
O perfil feminista de Bachelet contrapõe-se aos interesses dos Estados Unidos na ONU, que tem buscado restringir a definição de gênero em várias conferências internacionais. O recente fracasso dos EUA em uma proposta na Conferência Anual da ONU sobre os Direitos da Mulher reforça as incertezas em torno de sua candidatura. A declaração de Bachelet sobre sua possível liderança inclui um compromisso em servir todos os Estados-membros com imparcialidade e determinação, colocando a cooperação como chave para a paz e o progresso.
Próximos passos no processo eleitoral da ONU
Independentemente do resultado, a nova liderança da ONU enfrentará uma organização à beira de uma crise de representação e financeira, exacerbada pela retirada dos EUA de diversas entidades da ONU. A expectativa é que o próximo secretário-geral assuma um mandato de cinco anos, de 2027 a 2031, após um processo de seleção que se inicia com a recomendação do Conselho de Segurança e terminação na Assembleia Geral. O prazo informal para a apresentação de candidaturas é 1º de abril, e o novo líder deve ser eleito no último trimestre de 2026.