Operação Narco Fluxo expõe intricados esquemas de lavagem de dinheiro
A Operação Narco Fluxo, realizada pela Polícia Federal, revelou um esquema bilionário de lavagem de dinheiro que envolvia funkeiros, influenciadores e empresários do entretenimento, com uma fintech chamada Golden Cat no centro das operações. Comandada por cidadãos chineses, a empresa facilitava a movimentação de recursos ilícitos relacionados ao tráfico de drogas e apostas ilegais, resultando em 33 prisões, incluindo artistas conhecidos como MC Ryan SP e Poze do Rodo.
A investigação desvendou uma complexa engrenagem internacional, onde a fintech Golden Cat Processamento de Pagamento Ltda. atuava como o principal motor financeiro de um esquema que movimentou mais de R$ 260 bilhões. Segundo a Polícia Federal, os operadores da empresa eram responsáveis por assegurar a internacionalização do dinheiro, permitindo que os valores obtidos de forma ilícita fossem enviados ao exterior sem levantar suspeitas imediatas.
A operação, que ocorreu em diversos estados e no Distrito Federal, concentrou-se notoriamente na indústria do funk. Além de artistas, as prisões também abrangeram donos de produtoras como GR6 e Love Funk, que já estavam sob investigação por ligações com organizações criminosas como o Primeiro Comando da Capital (PCC). Para os oficiais, as empresas vinculadas ao meio musical eram utilizadas para mascarar receitas legítimas com dinheiro ilícito, permitindo o fluxo de grandes quantias sem alertar as autoridades.
Documentos da 5ª Vara Federal de Santos revelaram que a Golden Cat concentrava valores arrecadados por plataformas clandestinas de apostas e viabilizava o envio desses recursos para fora do país. O controlador atual, Xizhangpeng Hao, e o ex-administrador, Sun Chunyang, foram identificados como figuras centrais na estrutura que manipulava e redistribuía valores provenientes de apostadores e sites ilegais.
Os suspeitos Hao e Chunyang já haviam sido mencionados em investigações anteriores no Brasil, incluindo a Operação Desfortuna em 2024, que tinha como alvo a promoção irregular de jogos de azar online. Além disso, durante a CPI da Manipulação de Partidas de Futebol, ambos foram discutidos em relacionamentos com o mercado clandestino de apostas, embora não tenham sido convocados a depor.
A Polícia Federal identificou MC Ryan SP como o principal beneficiário econômico do esquema de lavagem de dinheiro. Seu irmão, Mateus Magrini Santana, também foi preso sob a acusação de atuar na recepção de valores e divulgação de plataformas de apostas.
As investigações indicam que o grupo teria movimentado cerca de R$ 1,6 bilhão em um período de apenas 24 meses. Para conseguir isso, a estrutura utilizava jovens artistas e influenciadores conhecidos na captação e circulação de recursos, sendo estas pessoas instrumentalizadas para movimentar valores sem levantar suspeitas. O dinheiro obtido de forma ilícita era frequentemente disfarçado como pagamentos por shows e contratos comerciais, permitindo a compra de imóveis, veículos de luxo e ostentação nas redes sociais, tudo isso para atrair novos apostadores.
A operação resultou na apreensão de dinheiro em espécie, documentos e até mesmo um fuzil, além de veículos avaliados entre R$ 4,8 milhões e R$ 6,9 milhões, como um Land Rover Defender e diversos modelos de Porsche e Mercedes-Benz. Foi determinada também a suspensão de contas bancárias e criptoativos, incluindo em corretoras tradicionais como Binance e Mercado Bitcoin.
A Justiça manteve a prisão temporária de MC Ryan SP, MC Poze do Rodo e outros alvos, após passagem por audiência de custódia. No entanto, a influenciadora digital Débora Paixão, que é esposa de Chrys Dias, obteve a liberdade sob supervisão domiciliar.
Em comunicado, a Justiça Federal informou que um total de 33 investigados foram apresentados à Justiça, e que outros pedidos para investigações adicionais ainda estão pendentes. As defesas dos acusados alegam não ter tido acesso total ao processo e negam as irregularidades, sustentando que as transações realizadas eram lícitas e que todos os tributos foram devidamente pagos. A defesa do influenciador Raphael Sousa diz que ele não faz parte de uma organização criminosa e que atua apenas como digital.
A Operação Narco Fluxo reflete um desdobramento das investigações iniciadas após a apreensão de drogas em 2023 e é um alerta sobre os mecanismos utilizados por criminosos para lavar dinheiro no Brasil, envolvendo não apenas a polícia, mas também a necessidade de uma resposta mais abrangente da sociedade e das autoridades jurídicas para combater esses crimes financeiros.