Doulas da morte: apoio emocional e humanização do luto no Brasil
Doulas da morte ganham destaque no apoio emocional a pacientes terminais e familiares, promovendo um olhar humanizado sobre o luto. Essas profissionais, ainda sem regulamentação no Brasil, oferecem suporte em momentos difíceis com o objetivo de ajudar as pessoas a lidarem com a morte e o luto de forma digna e respeitosa.
Khivia Kiss, transformada pela perda da mãe, tornou-se doula após vivenciar a presença acolhedora de Glenda Agra. Em 2021, a perda repentina da mãe, Elsa, aos 67 anos, deixou Khivia “sem chão”. Sentindo-se culpada e revoltada, a professora universitária não cogitava ir ao velório até que recebeu uma ligação de Glenda, que a convenceu a participar da despedida. “De forma doce, ela se fez presente, sem forçar ou impor nada. Me senti segura. Eu precisava ver e entender que o ciclo se fechou”, relata Khivia.
Pela experiência que teve durante a experiência com a doula, Khivia começou a terapia e decidiu se capacitar como doula da morte após perder outros dois irmãos. “Consegui lidar de forma mais suave”, diz ela, lembrando que auxiliou um dos irmãos, vítima de câncer, até o último momento, e atendeu o último desejo de outra paciente por suco de maracujá e pão de queijo.
Importância das doulas da morte
As doulas da morte atuam em diversas áreas além do cuidado direto aos pacientes. Elas se tornam um suporte essencial durante o processo de luto, ajudando a ressignificar as perdas. “A consciência da morte traz a gente para a vida”, afirma Khivia.
No Brasil, estimam-se cerca de mil profissionais atuando na área. Apesar da falta de regulamentação, a atuação das doulas tem crescido tanto em popularidade quanto em reconhecimento. Recentemente, a atuação das doulas da morte foi tema da série médica “The Pitt”, da HBO Max, com representações positivas do papel dessas profissionais na saúde e bem-estar dos pacientes terminais.
A necessidade de acolhimento e suporte tem sido um motivador para muitas pessoas se tornarem doulas. Glenda Agra, por exemplo, começou sua trajetória após o suicídio de seu pai, e desde então se dedicou a prestar cuidados e acolhimento a pacientes terminais. Em sua visão, a atuação das doulas é complementar às equipes de saúde, focando no bem-estar e humanização do processo de morte.
“A assistência é muitas vezes permeada de tecnologias duras, com protocolos e procedimentos. Falta um elemento central: sensibilidade”, explica Glenda. O papel das doulas também inclui mediar conflitos familiares e ajudar em rituais e burocracias, promovendo um Ambiente mais acolhedor para os que estão em processo de luto.
Educação para a morte
Com o aumento do reconhecimento da profissão, iniciativas de formação e educação para a morte têm sido promovidas por organizações e doulas. Tatiana Barbiere Santana, diretora da AmorTser, escola pioneira na formação de doulas da morte no Brasil, destaca a importância de discutir o ciclo da vida e os cuidados que devem ser tomados ao lidar com a morte.
Ela menciona que a proposta é “discutir o ciclo da vida e da morte para que as pessoas tenham uma morte digna e com conforto”, enfatizando que “a expectativa de vida está aumentando, mas a qualidade de vida no fim da vida precisa de melhorias significativas.”
Além disso, as doulas da morte oferecem suporte em diversas situações, como a organização de bens da pessoa falecida, apoio em grupos de enlutados e até ajudando tutores de pets a lidar com o luto, que, muitas vezes, é invisibilizado.
Doulas como Cláudia de Oliveira contam que o primeiro contato com a morte ocorreu quando ela encontrou seu passarinho na lata de lixo. Desde então, dedicou-se a oferecer despedidas dignas e carinhosas a seus pacientes. “Se a gente prepara tanto o nascimento, por que não ter esse cuidado na morte?”, questiona.
Desmistificando a morte
A questão do tabu em torno da morte é um desafio que as doulas enfrentam em seu trabalho, mas elas acreditam que o diálogo sobre a morte é fundamental para desmistificar o tema. As doulas não estão ali para roubar o espaço de outros profissionais de saúde, mas para complementar o cuidado que, muitas vezes, não é possível devido à carga emocional e à urgência do trabalho na área da saúde.
Considerações finais
Com a valorização da humanização nos cuidados em saúde, a atuação das doulas da morte ao lado das equipes médicas de cuidados paliativos é cada vez mais reconhecida. A importância desse trabalho no Brasil pode ser vista como um avanço na maneira como lidamos com a morte e o luto, permitindo às pessoas enfrentarem esses momentos com dignidade e menos sofrimento.