Economia de ideias: presidenciáveis priorizam promessas vagas
Na atual fase de polarização política, os pré-candidatos à Presidência do Brasil têm evitado apresentar propostas econômicas concretas, optando por promessas mais gerais, como cortes de gastos e redução de impostos. Essa abordagem busca diferenciar-se de Lula, que, por sua vez, tem investido em ações voltadas para o curto prazo, como o programa Desenrola.
De acordo com especialistas, essa vagueza nas propostas se dá pela dificuldade de se estabelecer uma marca própria no discurso econômico em um cenário cheio de incertezas. Entre as promessas dos presidenciáveis estão o “tesouraço” em gastos públicos e a ajuda a endividados, mas sem foco em estratégias duradouras.
Os políticos da oposição, como Flávio Bolsonaro (PL), Ronaldo Caiado (PSD) e Romeu Zema (Novo), têm se concentrado em diferenciar suas pautas nas áreas de segurança pública e política externa, o que os leva a desviar da formulação de propostas robustas para a economia. Lula, por sua vez, tem se empenhado em anunciou novos programas que, embora possam ter impacto no eleitorado a curto prazo, não são necessariamente sustentáveis a longo prazo.
Um exemplo disso é a nova edição do programa Desenrola, que visa permitir a negociação de dívidas para pessoas com baixa renda. Contudo, os estudos indicam que, apesar da redução do endividamento durante a vigência do programa em 2023, o problema aumentou novamente após o seu término.
Instabilidade global influi nas propostas
O cientista político Josué Medeiros, da UFRJ, aponta que a instabilidade econômica internacional dificulta a criação de propostas que visem soluções a longo prazo neste ciclo eleitoral. A pesquisa por pautas que mobilizem o eleitorado é uma tendência que deve crescer na medida em que as campanhas avance, enquanto a oposição busca reafirmar a necessidade de cortes em gastos públicos como forma de se contrapor a Lula.
O ex-ministro Zema tem apresentado propostas voltadas à privatização de empresas estatais e à diminuição dos investimentos públicos, o que pode afetar diretamente serviços essenciais, como saúde e educação. Ele defende uma ânsia de “aliviar a pressão dos impostos” sobre a população.
Caiado, com um tom mais cauteloso, escolheu como conselheiro econômico Roberto Brant, que terá a missão de estruturar seu plano de governo. Durante um evento em Porto Alegre, o ex-governador de Goiás criticou a atual relação dívida/PIB, insinuando que é possível diminuir essa porcentagem e estimular a confiança dos investidores.
Assumindo uma postura semelhante, Flávio Bolsonaro acabou por adotar um discurso que remete ao passado, evocando abordagens que foram propostas nas campanhas anteriores, como a delegação de responsabilidades ao seu agora famoso "posto Ipiranga". No entanto, ele admite que, por enquanto, irá apresentar planos genéricos para a economia.
O dilema das propostas concretas
Nesta etapa da pré-campanha, economistas como Nelson Marconi consideram que as propostas apresentadas ainda se encontram em um estágio embrionário. Ele critica a dificuldade dos candidatos em trazer discussões mais detalhadas e fundamentadas, afirmando que tal abordagem poderá aumentar o risco de que suas ideias não sejam bem assimiladas pelo eleitorado.
As últimas pesquisas indicam um panorama em que candidatos como Renan Santos (Missão) e Augusto Cury (Avante) estão empatados com Zema e Caiado. Santos, por exemplo, sugere uma fusão de municípios para diminuir gastos, propondo mudanças estruturais sem alinhar estratégias substanciais para a implementação.
Cury, por outro lado, reconhece a necessidade de enxugar o estado, mas se esquiva de especificar ações práticas. Essa falta de clareza pode resultar em propostas que, apesar de populares, não apresentam eficácia garantida no momento de aplicação.
Com isso, a polarização não só marca o tom do debate eleitoral, mas também influencia as propostas apresentadas, levando os candidatos a escolher entre a radicalização ou a omissão de detalhes que poderiam enriquecer suas falas.