Vínculo afetivo com pets e a ansiedade entre tutores

Por Autor Redação TNRedação TN

Dono e cão em casa: debate sobre ansiedade causada pela relação com pets. Reprodução: Oglobo

Vínculo afetivo com pets e a ansiedade entre tutores

O vínculo afetivo com cães e gatos tem se intensificado no cotidiano, trazendo também novos desafios emocionais para quem cuida. Estima-se que a relação cada vez mais próxima entre humanos e pets intensifique desafios emocionais, como a ansiedade entre tutores, que se preocupam de maneira excessiva com a saúde e o comportamento dos animais.

Estudos indicam que esse vínculo pode influenciar a saúde mental dos tutores, gerando sentimentos de culpa e uma responsabilidade exacerbada. A terapia, especialmente abordagens como a Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC) e a Terapia de Aceitação e Compromisso (ACT), pode ser extremamente útil para lidar com a ansiedade, ajudando a identificar gatilhos e promovendo a resiliência emocional.

A relação com os animais de estimação nunca foi tão próxima e, em consequência, cresce um sentimento menos discutido, mas cada vez mais presente: a ansiedade. Entre preocupações com a saúde, comportamento e até o simples fato de deixar o pet sozinho em casa, muitos tutores relatam um estado constante de alerta emocional que acompanha o afeto cotidiano.

Essa transformação acompanhou uma mudança no papel dos cães e gatos na vida doméstica. Mais do que companhia, eles passaram a integrar a dinâmica afetiva das famílias, impactando diretamente a rotina e o bem-estar emocional dos tutores. Nesse contexto, questões relacionadas ao cuidado com os animais ganham maior peso e podem desencadear apreensões frequentes.

Esse fenômeno também tem sido alvo de diversas pesquisas acadêmicas. A psicoterapeuta e pesquisadora Renata Roma, da University of Saskatchewan, no Canadá, investiga há mais de uma década a relação entre saúde emocional, infância e vínculos com animais. Seus estudos indicam que o laço com os pets exerce influência significativa na vida psíquica, tanto pelos efeitos positivos quanto pelos desafios envolvidos.

As inquietações se manifestam de diferentes maneiras. Há tutores que se angustiam com a saúde física do animal, outros enfrentam dificuldades em lidar com comportamentos inadequados dos pets e alguns sentem desconforto ao se separar do animal ao longo do dia. Pensamentos repetitivos e cenários hipotéticos, especialmente quando o pet está doente ou fora de vista, são recorrentes. Segundo Renata, a separação de um animal pode estar associada a uma maior vulnerabilidade emocional, ampliando quadros de ansiedade e depressão.

Na prática clínica, essas demandas aparecem frequentemente. Relatos de culpa por não corresponder a um padrão idealizado de cuidado, preocupação com custos veterinários e uma sensação persistente de responsabilidade pelo bem-estar do animal são comuns. Entretanto, muitos tutores evitam levar o tema para a terapia, seja por receio de julgamento, seja pela percepção de que esse tipo de vínculo nem sempre é compreendido no ambiente clínico.

A influência cultural na relação entre humanos e pets

Aspectos culturais também influenciam essa dinâmica. Apesar da popularidade das expressões como "pai" ou "mãe" de pet, ainda há resistência em determinados contextos, o que contribui para que essas experiências sejam menos verbalizadas. Por outro lado, observa-se um avanço no reconhecimento do impacto dos animais de estimação na saúde mental, e a terapia pode oferecer um espaço adequado para elaboração dessas questões.

Abordagens como a Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC), a Terapia de Aceitação e Compromisso (ACT) e técnicas de Exposição e Prevenção de Resposta (ERP) são amplamente utilizadas para identificar gatilhos, reorganizar padrões de pensamento e desenvolver estratégias de enfrentamento. O processo terapêutico costuma iniciar com a identificação das situações que provocam a ansiedade, incluindo experiências prévias e crenças relativas ao cuidado com o pet.

Outro eixo importante das terapias envolve a relação com a incerteza. Muitas preocupações estão associadas a situações fora do controle dos tutores. Nesses casos, o trabalho clínico busca desenvolver uma maior tolerância a esse tipo de experiência, reduzindo o impacto de pensamentos recorrentes. A análise dos padrões de apego também pode ser relevante, pois em alguns casos a relação com o animal reflete dinâmicas presentes em outros vínculos, como tendências à hiper-responsabilidade ou à autocobrança. A identificação desses padrões é fundamental para a construção de relações mais equilibradas.

O luto na relação com pets

O tema do luto também surge não só em situações de morte, mas em separações, desaparecimentos ou mudanças na rotina, que podem gerar sofrimento significativo, geralmente acompanhado de culpa. Especialistas afirmam que essas experiências demandam reconhecimento e elaboração adequada. Para Renata, entender a complexidade do vínculo entre humanos e animais é um passo importante para lidar com os efeitos emocionais desse relacionamento. Quando essa relação é reconhecida, torna-se possível cuidar melhor tanto do tutor quanto do animal.

Tags: SaúdeMental, Pets, Ansiedade, Terapia Cognitivo-Comportamental, Bem-Estar Animal Fonte: oglobo.globo.com