O dia a dia dos brasileiros é repleto de palavras derivadas de línguas africanas, especialmente dos troncos linguísticos banto e iorubá. Essas expressões estão presentes em diversos aspectos da vida cotidiana, nomeando comidas, sentimentos, partes do corpo e elementos culturais. O dia 25 de maio, que é celebrado como o Dia da África, foi instituído pela Organização das Nações Unidas (ONU) em referência à criação da Organização da Unidade Africana (OUA) em 1963.
O babalaô (sacerdote de candomblé) Ivanir dos Santos, pedagogo e pesquisador brasileiro, destaca algumas dessas palavras e seus significados. Entre elas, podemos encontrar: - **Aluá**: Bebida fermentada - **Axé**: Energia, força vital ou saudação - **Bagunça**: Desordem, confusão - **Berimbau**: Instrumento musical de corda - **Bunda**: Nádegas - **Caçula**: Filho mais novo - **Cafuné**: Carinho na cabeça, acariciar - **Dengo**: Manha, carência - **Fubá**: Farinha de milho - **Moleque**: Menino - **Quitanda**: Pequeno comércio de hortaliças ou mercado - **Samba**: Gênero musical e dança - **Xodó**: Pessoa muito querida, apego O trabalho de Ivanir dos Santos é reconhecido pela defesa dos direitos humanos e pelo combate ao racismo e à intolerância religiosa. O filólogo e linguista brasileiro Ricardo Stavola Cavaliere, membro da Academia Brasileira de Letras (ABL), também comenta sobre a influência das palavras africanas no português do Brasil.
Ele menciona que o vocabulário de origem africana abrange várias áreas da atividade social, incluindo a culinária, com termos como "vatapá", "dendê", "moqueca" e "farofa". Na música, palavras como "berimbau" e "cuíca" são exemplos dessa herança. Cavaliere explica que, embora muitas palavras tenham mantido o significado original, algumas, como "samba", sofreram alterações semânticas ao longo do tempo.
Ele observa que as palavras de origem africana passaram por ajustes fonéticos ao serem incorporadas ao léxico do português. Por exemplo, a palavra "dengo" é utilizada para expressar carinho e afeto, enquanto "caçula" se refere ao filho mais novo. Essa inclusão de palavras africanas no contexto familiar é atribuída à presença significativa de mulheres escravizadas nas atividades domésticas desde o Primeiro Império.
O professor Gilvan Muller de Oliveira, doutor em linguística pela Universidade de Campinas (Unicamp), enfatiza que a comemoração do Dia da África deve ir além de um reconhecimento do passado. Para ele, é fundamental mobilizar as tradições do Brasil, que abriga a maior população de origem africana fora do continente africano. Ele sugere que as universidades desempenhem um papel crucial na promoção de uma visão contemporânea da África, destacando as oportunidades e benefícios que essa relação bilateral pode trazer.
O professor de ciências humanas e mestre em ciências da educação Augusto Ribeiro ressalta que a herança africana não se limita ao vocabulário, mas permeia a cultura brasileira e a forma de falar do povo. Ele acredita que cada palavra é um fragmento da história e uma forma de resistência que perdura ao longo do tempo. Ribeiro menciona expressões como "banguela", que tem origem na língua kimbundu, e outras gírias que refletem essa influência.
A presença de palavras africanas no cotidiano brasileiro é um testemunho da rica herança cultural que moldou a identidade do país. O reconhecimento e a valorização dessas expressões são essenciais para a construção de uma sociedade mais inclusiva e consciente de suas raízes. O Dia da África, portanto, não é apenas uma data comemorativa, mas uma oportunidade de refletir sobre a importância da cultura africana na formação da identidade brasileira.