O cenário musical passa por uma revolução onde o poder de decisão sobre o que se torna imortal agora reside nas mãos dos ouvintes, refletindo uma mudança significativa na dinâmica artística.
Desde 1965, a música tem se transformado a cada dez anos, evidenciando como as tecnologias, desde as emissoras de FM até as plataformas de streaming como Spotify, remodelaram as relações de poder entre artistas e seus públicos. Esse novo paradigma pode ser visto como a "era de todas as eras", onde os ouvintes não apenas consomem, mas também definem suas próprias experiências e o que desejam preservar na memória musical.
É interessante notar que, ao longo desse meio século, houve um constante "teste de sobrevivência" a cada década. Todos os que produzem, tocam e escutam música enfrentam uma triagem que determina quem será lembrado e quem se tornará parte do passado. Os artistas que demoram a se adaptar a essas novas realidades acabam desaparecendo da atualidade.
Em 1965, a introdução de programas de televisão que destacavam os artistas transformou a esfera musical, introduzindo uma nova geração, enquanto os antigos se viam relegados a uma imagem de “velha guarda”. Essa transição não foi vista apenas em um aumento de idade entre os músicos, mas também nas expectativas do público com relação à música.
Avançando para 1975, as emissoras FM trouxeram um som mais enriquecido e claro, tornando-se o novo padrão. A juventude que emergiu nessa época teve que se adaptar rapidamente a essa nova estética sonora, enquanto os que permaneceram na velha abordagem, da amplitude modulada, enfrentavam um contexto que os considerava ultrapassados.
O ingresso dos CDs nos anos 1980 consolidou a concepção de música como um produto comercial. O foco estava em artistas que garantissem lucro, em detrimento daqueles que ousavam experimentar. Este fenômeno relegou muitos criadores a um status de marginalidade, mostrando que o mercado musical estava sendo moldado não apenas pela arte, mas pelas regras do comércio.
Com o advento do MP3 nos anos 1990, a percepção de que o acesso à música não necessitava de pagamento se disseminou rapidamente. A pirataria começou a desafiar o império dos grandes selos, enquanto jovens e velhos percebiam que a forma de consumir música estava prestes a mudar irremediavelmente.
Em 2015, a chegada do Spotify ao Brasil não apenas consolidou a era do streaming, mas redefiniu novamente o que significava existir no mundo da música. O conceito de juventude e relevância foi amplamente revisitado; agora, a carreira dos artistas dependia, mais do que nunca, da sua capacidade de se reinventar e permanecer visível nas plataformas digitais.
Chegando a 2025, a possibilidade de uma nova ordem musical se torna um tema debatido, mas ainda sem uma definição clara. O cansaço das redes sociais e a busca por novos modelos de interação cultural apontam para uma transformação iminente. Os formatos de mídia física estão ressurgindo, trazendo novas experiências ao público. Assim, quem consome música não apenas decide o que mantém vivo, mas também define a época em que prefere ouvir cada artista, moldando continuamente a história musical de maneira pessoal e coletiva.
No final, a música entra em uma era em que os ouvintes não apenas escolhem o que é relevante, mas também ditam as regras sobre a temporalidade e a imortalidade dos artistas. Essa mudança pode realmente marcar a melhor fase da música em todos os tempos.