A discussão sobre a redução da jornada de trabalho no Brasil, especialmente a proposta de alterar a escala de trabalho de 6×1 para 5×2, tem ganhado destaque nas últimas semanas. Ricardo Patah, presidente da União Geral dos Trabalhadores (UGT) e do Sindicato dos Comerciários de São Paulo, é um dos principais defensores dessa mudança. Em entrevista, ele destacou que a redução da jornada é uma questão de justiça social, considerando que muitos trabalhadores enfrentam longas jornadas com salários baixos, enquanto outras categorias desfrutam de períodos de descanso mais prolongados.
Patah argumenta que a atual configuração de trabalho, onde muitos funcionários têm apenas um dia de folga por semana, não é sustentável. "Não é justo que milhões de pessoas trabalhem exageradamente e com salários baixos enquanto algumas atividades têm sessenta dias de recesso", afirmou. Ele acredita que a proposta de redução da jornada, que visa diminuir a carga semanal de 44 para 40 horas, deve ser debatida de forma mais ampla, considerando as realidades de cada setor.
O sindicalista também enfatizou a importância do diálogo entre sindicatos e empresas para encontrar soluções que não comprometam a viabilidade econômica das organizações. "Não queremos quebrar as empresas e estamos abertos a dialogar", disse Patah, sugerindo que mecanismos de transição e apoio às microempresas poderiam ser implementados para facilitar essa mudança. Atualmente, a proposta de redução da jornada está sendo discutida na Câmara dos Deputados, e Patah espera que um texto final possa ser votado ainda neste mês.
Ele acredita que a negociação coletiva seria o ideal, permitindo que cada setor discuta suas necessidades específicas, mas reconhece que a realidade atual do Brasil não favorece essa flexibilidade. "A negociação coletiva seria o ideal, não há dúvida, mas desde que as partes estejam numa situação similar para tomar as decisões", afirmou. Ele mencionou que o Sindicato dos Comerciários tem buscado novas convenções coletivas que incluam a proposta de 5×2, mas até agora, o sucesso tem sido limitado, com apenas algumas grandes empresas adotando essa mudança voluntariamente.
Patah também destacou que a pandemia acelerou a adoção de tecnologias que podem facilitar a redução da jornada de trabalho. "Temos aplicativos, teletrabalho, caixa sem atendente, plataformas de compras. Eu acredito que estamos num momento maduro para o diálogo", disse ele, referindo-se à necessidade de adaptar as práticas de trabalho às novas realidades do mercado.
Além disso, ele apontou que a dificuldade de contratação de novos funcionários tem levado algumas empresas a reconsiderar suas práticas de trabalho. "As empresas estão enfrentando muita dificuldade para contratar. O comércio sempre foi a porta de entrada para o mercado de trabalho, mas os jovens não estão mais interessados, em grande parte pelo exagero da jornada e pelos salários baixos", explicou.
Patah acredita que a mudança na jornada de trabalho pode ser uma forma de atrair novos talentos para o setor, especialmente se as condições de trabalho forem mais favoráveis. "Praticamente 100% do pessoal da área de vendas faz o 6×1. Já na área administrativa, 90% trabalha de segunda a sexta.
Estamos falando da maior categoria do Brasil", ressaltou. Por fim, ele concluiu que a questão da jornada de trabalho não é apenas uma preocupação dos empresários, mas sim uma questão que envolve toda a sociedade. "É por isso que eu digo que essa não é uma questão só do empresário.
É de toda a sociedade. Os custos são complexos e por isso é importante ter os argumentos, para que a sociedade decida".