Nos últimos anos, o mercado brasileiro de assessorias financeiras independentes passou por uma significativa transformação, caracterizada por um processo de consolidação. Escritórios maiores estão absorvendo operações menores em busca de maior escala, tecnologia e capacidade de atender a um público cada vez mais exigente. Essa análise é de Katia Alecrim, sócia fundadora da Davos Investimentos, uma das principais empresas que têm liderado esse movimento no Brasil.
A Davos, em particular, integrou três operações relevantes: Fênix, Étre-Davos e Sirius. Segundo Katia, a estratégia não se limita a aumentar o tamanho da empresa. "M&A não deve ser apenas um movimento financeiro.
Precisa ser uma construção de continuidade, cultura e fortalecimento institucional", afirma. Katia observa que o setor amadureceu, deixando de lado discussões apenas sobre expansão comercial e abertura de novos escritórios. "Agora, o setor começa a discutir temas mais sofisticados, como governança, sucessão, cultura empresarial, tecnologia, retenção de talentos e escala operacional", diz ela.
Esse novo estágio favorece as fusões entre empresas que compartilham visões de longo prazo. Para Katia, o crescimento por meio de aquisições não substitui o crescimento orgânico, mas o complementa. "Escala também significa capacidade de investir melhor em tecnologia, inteligência de dados, governança, produtos e formação de equipes especializadas", explica.
A questão principal, segundo a executiva, não é crescer mais rápido, mas sim crescer com consistência. Ao avaliar potenciais alvos de aquisição, Katia destaca que o alinhamento cultural é prioritário. "Cultura vem antes de qualquer indicador financeiro.
Uma operação pode ter números excelentes, mas, se não existir alinhamento de valores, visão de atendimento e postura de longo prazo, dificilmente a integração será sustentável." Além disso, a qualidade do relacionamento com os clientes, o nível de organização interna e a capacidade de adaptação tecnológica são fatores que entram na análise de potenciais aquisições. "Crescimento sem coerência cultural gera fragilidade no futuro", resume.
Katia prevê que a consolidação do setor deve reduzir o número de escritórios pequenos atuando de forma isolada nos próximos anos. Com regras mais rígidas, clientes mais exigentes e um custo elevado para manter uma operação competitiva, ela acredita que ainda há espaço para casas pequenas que se especializam em nichos específicos. "O que deve diminuir é o modelo intermediário sem diferenciação clara.
O cliente hoje valoriza especialização, estrutura e confiança", afirma. Para sobreviver, escritórios pequenos devem focar em alta especialização, proximidade real com o cliente e uma proposta de valor bem definida. A Davos, por sua vez, está traduzindo essa nova realidade em novas frentes de negócio.
A empresa criou a Étre-Davos Gestora de Recursos, voltada para a gestão de grandes fortunas, e a Davos Empresas, que atende companhias em demandas financeiras, patrimoniais e estratégicas. Recentemente, também foi aberta uma área de crédito estruturado focada em Fundos de Investimento em Direitos Creditórios (FIDCs). Após a integração com a Sirius, o grupo lançou a Davos Capital, que se dedica a assessorar fusões e aquisições, com foco em empresas familiares.
"Tudo isso nasce de uma mesma visão: o mercado financeiro está se tornando mais consultivo, mais estratégico e muito mais integrado", diz Katia. Essa mudança reflete um novo perfil de cliente, que não busca apenas acesso a produtos financeiros, mas também profundidade técnica e coordenação financeira. A tendência é que a assessoria financeira se torne uma plataforma completa de soluções, abrangendo planejamento de sucessão, proteção patrimonial, crédito, câmbio, seguros e investimentos no exterior.
Katia atribui à XP um papel relevante nessa transformação do mercado brasileiro, reconhecendo que a corretora democratizou o acesso a investimentos e elevou o padrão de atendimento. Sobre a crescente presença da inteligência artificial nas assessorias, Katia acredita que a tecnologia trará uma transformação profunda, mas não substituirá o contato humano. "Em decisões patrimoniais relevantes, a confiança continua sendo um fator central", afirma.
A tecnologia deve ser utilizada para análise de dados, automação de processos e personalização de atendimento, liberando tempo operacional para que os profissionais atuem de forma mais estratégica e próxima do cliente. O investidor brasileiro, por sua vez, está mais aberto a produtos sofisticados do que há alguns anos, demonstrando interesse por diversificação internacional, ativos alternativos e estruturas de proteção e sucessão patrimonial. "O cliente passou a entender que patrimônio não se constrói apenas buscando rentabilidade.
Ele precisa ser organizado, protegido e planejado no longo prazo", avalia Katia. Olhando para os próximos cinco anos, Katia projeta um cenário de concentração e competição simultâneas. Grupos maiores devem ganhar peso devido à necessidade de investir em tecnologia e governança, mas a disputa por clientes deve se intensificar com a sofisticação do mercado.
"Vencerão os grupos capazes de combinar escala, cultura forte, profundidade técnica e relacionamento genuíno", conclui.