Educação ainda não tem a relevância eleitoral que deveria ter

Por Autor Redação TNRedação TN

Educação ainda não tem a relevância eleitoral que deveria ter. Fonte: VEJA

A educação no Brasil enfrenta um desafio significativo: sua relevância nas eleições é notoriamente baixa. Essa constatação foi feita por Ben Ross Schneider, professor de Ciência Política do MIT, durante o seminário internacional "Gestão Educacional: Desafios e Perspectivas para a Garantia do Direito à Educação", realizado recentemente em Brasília. Schneider, uma das principais referências em políticas educacionais na América Latina, destacou que, enquanto países como o Chile conseguiram colocar a educação como um tema central nas campanhas eleitorais, no Brasil, essa questão frequentemente ocupa o quarto ou quinto lugar nas preocupações da população, atrás de temas como corrupção e economia.

O especialista lamenta que, apesar da importância da educação para o desenvolvimento social e econômico, ela não recebe a atenção que merece nas discussões políticas. "Normalmente, no Brasil e em outros países da América Latina, a educação não tem a relevância eleitoral que deveria ter", afirmou Schneider. Ele sugere que uma possível solução para aumentar essa relevância seria a publicação dos resultados do Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) antes das eleições, o que poderia estimular o debate sobre a qualidade da educação entre os candidatos e a população.

No Chile, a educação foi um dos pilares da campanha de Michelle Bachelet à presidência em 2013, após uma série de manifestações que mobilizaram estudantes e professores. Schneider observa que, no Chile, uma coalizão de organizações da sociedade civil, incluindo sindicatos e associações, se uniu para discutir e propor reformas na carreira docente, o que facilitou a aprovação de mudanças significativas no sistema educacional. Em contraste, no Brasil, essa falta de coalizão e diálogo entre os diversos atores envolvidos na educação é um dos principais obstáculos para a implementação de reformas eficazes.

Schneider destaca que, mesmo que uma bela reforma seja aprovada, sua implementação pode falhar se não houver apoio e negociação com os professores e sindicatos. "Essa negociação é muito importante porque você pode passar uma bela reforma, mas se, depois, na implementação, ela encontra resistência por parte dos professores ou do sindicato, não chega na sala de aula", explica. A construção de coalizões duradouras é um caminho desafiador, mas necessário para garantir políticas de reforma educacional a longo prazo.

Schneider acredita que, ao contrário das políticas econômicas, que podem ser alteradas rapidamente, as reformas educacionais exigem um apoio político contínuo para serem efetivas. Além disso, o professor ressalta que a qualidade da educação no Brasil está aquém da média da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). "A maior parte dos países da América Latina, como o Brasil, está dois anos atrás da média da OCDE na qualidade da educação", afirma.

Ele também destaca que a questão não é apenas de recursos, já que estados mais pobres do Norte e Nordeste têm apresentado melhores resultados educacionais do que estados mais ricos do Sul e Sudeste. Para Schneider, a solução para melhorar a qualidade da educação no Brasil não é tão complexa quanto se imagina. Ele defende que reformas simples e básicas podem ter um grande impacto.

No entanto, a falta de pressão política e de coalizões pró-reforma tem dificultado o avanço nesse setor. "Educação não aparece na lista das prioridades da indústria. Quando aparece, está nos últimos lugares", lamenta.

Os resultados do último Pisa, que avalia habilidades em leitura, matemática e ciências, mostram que cerca de metade dos estudantes brasileiros não atingiram o nível básico de proficiência. Schneider enfatiza que é crucial investir na educação infantil para que as crianças possam ter um desenvolvimento adequado e participar da nova economia no futuro. "Muitas crianças já chegam no primeiro ano do ensino fundamental com atraso e problemas de aprendizagem.

Investimentos na primeira infância podem ter um grande impacto", conclui. Com as eleições se aproximando, é fundamental que a educação se torne uma prioridade nas propostas dos candidatos, independentemente de suas orientações políticas. A qualidade da educação é um tema que deve ser debatido amplamente, pois sem isso, o Brasil corre o risco de continuar retrocedendo em termos de desenvolvimento social e econômico.

Tags: Educação, Relevância eleitoral, Ben Schneider, Reformas Educacionais, Qualidade da educação Fonte: veja.abril.com.br