A corrida por vinhos raros no Brasil tem se intensificado nos últimos anos, especialmente com a popularização de séries e filmes que abordam o tema, como "Seus amigos e vizinhos", da AppleTV+. Na trama, o protagonista Andrew Cooper, interpretado por Jon Hamm, é um ex-gestor de fundos que se envolve em um mundo de luxo e ostentação, onde a busca por uma garrafa de Domaine d’Auvenay Chevalier-Montrachet Grand Cru se torna um símbolo de status. Este vinho, que pode ultrapassar os 80 mil reais no Brasil, é um exemplo do que se considera "quiet luxury", ou seja, uma riqueza que não se exibe, mas que é reconhecida apenas por iniciados.
Os vinhos raros, como o d’Auvenay, são produzidos em quantidades extremamente limitadas, o que os torna altamente desejáveis entre colecionadores e apreciadores. A produção de menos de 600 garrafas em algumas safras torna esses vinhos não apenas uma bebida, mas um investimento. No Brasil, a lógica de compra desses vinhos é peculiar: não se trata apenas de ter dinheiro, mas de estar disposto a esperar e competir por eles.
Desde os anos 90, o Brasil começou a se tornar uma rota para esses vinhos de alta gama, mas a compra não é simples. O empresário Otávio Lilla, da importadora Mistral, explica que quando chegam microalocações de vinhos raros, a regra é que cada cliente pode comprar apenas uma garrafa por CPF. Isso cria uma corrida entre os consumidores, semelhante à disputa por bolsas de grife como a Birkin da Hermès.
Os grandes vinhos, como Romanée-Conti e Sassicaia, são comercializados de forma extremamente seletiva no Brasil. A importação desses produtos é tão rigorosa que, em alguns casos, a importadora não divulga o preço online, e as vendas são limitadas a uma garrafa por pessoa. Além disso, parte das remessas é sacrificada para exames laboratoriais exigidos pelo Ministério da Agricultura, o que torna o processo ainda mais complicado.
A burocracia brasileira também impede que muitos vinhos comemorativos, como o MCDXIX da Blandy’s, que celebra os 600 anos da Ilha da Madeira, cheguem ao país. Este vinho, que custa 6. 500 euros, não foi importado para o Brasil devido aos altos custos associados aos testes laboratoriais necessários para sua entrada.
Apesar das dificuldades, muitos vinhos raros conseguem furar essa barreira e são disputados a tapa por consumidores endinheirados. O porto da Graham’s 80 Years Old Tawny, por exemplo, custa cerca de 27 mil reais e é importado em quantidades limitadas, apenas três unidades por ano. Outros vinhos, como o Oremos Petrács 2017, da Vega Sicilia, e o Tondonia Branco e Rosé, também seguem a mesma regra de venda restrita.
A escassez desses vinhos é um fator que atrai colecionadores, mas a relevância e a história por trás de cada garrafa são o que realmente importa. Bernardo Pinto, diretor técnico da Zahil, uma das principais importadoras do Brasil, afirma que a grandeza de um vinho não está apenas em seu preço, mas na história que ele carrega. Um grande vinho deve contar uma história, refletir um solo, uma obsessão, uma família ou um século de tradição.
No contexto da série da AppleTV+, a escolha do vinho furtado por Andrew Cooper não é apenas uma questão de lucro, mas uma crítica à forma como a elite trata o vinho como um ativo financeiro. No Brasil, mesmo com toda a liturgia e burocracia, ainda existe a esperança de que alguém abra uma garrafa e dê ao vinho o valor que ele realmente merece. A corrida por vinhos raros é, portanto, não apenas uma busca por status, mas uma busca por experiências e histórias que esses vinhos podem proporcionar.