A Soberania Europeia sob a Lente do Euro Digital
A discussão em torno da soberania europeia se intensifica com o advento do euro digital, questionando se a Europa realmente regula em excesso ou se deveria ter construído com mais ambição suas infraestruturas financeiras. Em uma cerimônia que sinalizou a integração de novos países ao euro, a presidente do Banco Central Europeu (BCE), Christine Lagarde, destacou a importância de um modelo europeu robusto em tempos de globalização.
O debate sobre a regulação na Europa gera questionamentos válidos. É necessário analisar não apenas a quantidade de regras, mas também onde a regulação é insuficiente e quais as consequências disso. O incidente ocorrido em dezembro de 2025, no qual juízes da Corte Penal Internacional foram sancionados pela administração dos Estados Unidos, evidenciou que a governança financeira está além do controle europeu. A falta de recursos financeiros, mesmo a partir de uma decisão de um país fora da Europa, demonstrou a fragilidade da autonomia financeira da União Europeia.
Com cerca de 15% do PIB mundial e 20% das reservas internacionais, o euro não é uma moeda insignificante. Contudo, boa parte dos pagamentos eletrônicos realizados na Europa transita por sistemas internacionais como Visa e Mastercard. Estas redes, embora tecnicamente competentes, possuem centros de decisão fora do controle europeu, revelando a vulnerabilidade da região em sua infraestrutura financeira.
A relação entre regulação e autonomia apresenta uma nuance importante. Embora a Europa tenha regulamentado muitos setores, em outras áreas, confiou que a infraestrutura financeira seria garantida pelo mercado global. Isso resultou em uma dependência crítica de sistemas que estão fora de seu alcance, ao mesmo tempo em que se discute a rigidez das normas locais.
Cada transação realizada por um cidadão europeu, desde a assinatura de um serviço digital até a compra de uma passagem aérea, gera um vasto conjunto de dados que refletem comportamentos de consumo e outras informações econômicas. Portanto, a gestão do sistema de pagamentos tem implicações diretas sobre como essa informação circula e sob quais condições, colocando em xeque a capacidade de uma governança realmente autônoma.
O atual sistema financeiro não pode ser considerado isento de regras, mas muitos de seus padrões operacionais são definidos fora da União Europeia, resultado direto da globalização financeira. Em tempos de crescente fragmentação geopolítica, essa dependência se torna ainda mais explicitamente problemática e custosa para a União.
É fundamental entender que a autonomia estratégica não se traduz em autarquia. A Europa continuará a participar de um sistema financeiro global interconectado, onde a interdependência não deve se transformar em uma dependência assimétrica. Para garantir um poder econômico à altura de suas ambições, a moeda europeia precisa de um suporte institucional sólido que possibilite uma governança efetiva.
Embora haja críticas ao euro digital por ser visto como uma intervenção excessiva do setor público, é crucial entender que o poder na esfera dos pagamentos já existe. A escolha não é entre ter ou não poder, mas sim decidindo onde esse poder reside e sob quais regras será exercido.
Abstendo-se de um mercado desregulado e neutro, a alternativa ao euro digital é um cenário onde empresas privadas estabelecem padrões técnicos e gerenciam dados financeiros que afetam diretamente a economia europeia. Essa realidade reforça que a Europa pode ser rigorosa em sua regulação, enquanto ainda carece de uma infraestrutura robusta para enfrentar desafios financeiros fundamentais.
Embora o euro digital não seja a solução mágica para todos os problemas do sistema de pagamentos, ele pode ampliar as opções disponíveis, diminuir a concentração de poder e assegurar uma correspondência mais coesa entre a força econômica do euro e suas bases tecnológicas.
A verdadeira discussão talvez não seja se a Europa regula demais, mas se, em setores estratégicos, tem sido suficientemente proativa ao regular e construir as estruturas que sua moeda requer.
Alex Saiz Verdaguer é CEO e fundador da Monei.