Cubanos se reinventam: carros a carvão e banhos de chuva
Os apagões constantes e a falta de água e combustível forçam os cubanos a uma árdua rotina de sobrevivência. É nesse cenário que histórias inspiradoras emergem do povo de Cuba, refletindo a criatividade e resiliência diante das adversidades.
Um exemplo desses improvisos é Juan Carlos Pino, que projetou um carro movido a carvão em Aguacate, um pequeno município cubano. No dia 24 de março de 2026, ele exibia sua invenção, um Polski Fiat 126p, de 1980, adaptado para funcionar com carvão vegetal. Em meio a uma cidade de aproximadamente 6.000 habitantes, o carro se tornou um verdadeiro espetáculo, atraindo a curiosidade de vizinhos e familiares.
Juan Carlos, um mecânico que se tornou conhecido como "Juan Carlos, o do Polaquito", relata que a ideia surgiu após a imposição de uma ordem executiva nos Estados Unidos que limitou a chegada de combustível à ilha. "O que tem dinheiro compra gasolina. A mim, resta sujar as mãos com carvão", ironiza Pino, que após dois meses de trabalho, conseguiu adaptar seu veículo utilizando materiais reciclados e sucata.
Seu método de funcionamento é engenhoso: o carvão é queimado em um tanque de propano modificado, onde um sofisticado processo com bastante paciência é implementado para colocar o carro em movimento. "Não é um carro para quem tem pressa", comenta Juan Carlos, contando que o orgulho por seu feito é compartilhado por toda a comunidade.
Entretanto, a realidade da vida cubana não se resume apenas a invenções automotivas. O racionamento de água afeta a vida de todos, com muitos cidadãos se virando para coletar água da chuva. Dignora Michel, por exemplo, diz que precisa dessa água apenas para se banhar. A escassez recorrente faz com que até mesmo o essencial se torne um desafio diário.
Os apelos por condições de vida melhores também ressoam em vozes de mães como Romina, que se vêem forçadas a deixar seus empregos estatais devido a salários que mal cobrem os custos da vida. Críticas a essa realidade são comuns: "Estamos cansados de inventar formas de sobrevivência. São dias em que parece que nada dá certo". A luta pela dignidade em meio a tantas restrições é uma constante na vida dos cubanos.
A escassez de fornecimentos e os cortes de energia também têm gerado um ambiente de tensões sociais no país. Recentemente, o Observatório Cubano de Conflitos reportou uma onda de protestos, com 1.245 manifestações relacionadas à falta de serviços essenciais. Ao mesmo tempo, a esperança local se renova com a chegada de um navio russo trazendo petróleo. No entanto, a expectativa de melhora é contida, pois muitos concordam que os problemas estruturais são profundos e persistentes.
Ao mesmo tempo, histórias de inventividade permeiam a rotina cubana. Ares de magia e improviso se tornaram marcantes, fazendo com que cada pequena conquista diária pareça uma vitória. Com a luz frequentemente se apagando, muitos cubanos tiveram que aprender a modificar suas casas e veículos, utilizando a eletricidade que conseguem armazenar de baterias de carros.
"A resiliência é a nossa especialidade", afirma Nadia González Álvarez, diretora de uma empresa têxtil que enfrenta dificuldades na aquisição de matérias-primas. "Estamos habituados a fazer o melhor que podemos com o que temos. Aprendemos a economizar e a nos reinventar ao longo das décadas".
Com um povo que frequentemente é denominado "magos" em suas invenções, a história de Cuba se transforma em um retrato de superação. A mistura de lamentações com risos e a persistência para continuar lutando são as verdadeiras almas dessa nação. O que se percebe é que, apesar das dificuldades, a criatividade humana brilha intensamente, mostrando que a luta pela vida em Cuba continua, com dignidade e coragem.