Asfaltamento da BR-319 na Amazônia gera alerta sobre riscos de saúde
O asfaltamento da BR-319, uma importante rodovia que conecta Manaus a Porto Velho, na Amazônia, levanta sérias preocupações quanto à saúde pública. Um estudo recente revela que essa obra, facilitada por modificações no licenciamento ambiental, pode aumentar a transmissão de doenças, especialmente em áreas conhecidas por abrigar reservatórios microbiológicos contendo linhagens isoladas e potencialmente patogênicas, como vírus e bactérias.
A nota técnica emitida por 13 entidades científicas recomenda a suspensão das obras e alertou sobre a desregulamentação ambiental que pode representar uma ameaça não apenas à saúde da população, mas também à integridade ecológica da região. Os pesquisadores destacam que as intervenções na rodovia e a exploração de recursos naturais, como o potássio em Autazes, interferem diretamente em zonas próximas aos rios Purus e Madeira, que são reconhecidas por sua biodiversidade única.
A proposta de asfaltamento da BR-319 foi acelerada ao introduzir uma brecha legal que permite a liberação do licenciamento em prazos de até 90 dias. Essa mudança, aprovada pelo Senado em dezembro, foi sancionada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, promovendo um debate acalorado entre apoiadores e críticos da obra. Ambientalistas expressam preocupações sobre o aumento do desmatamento numa das áreas mais preservadas da floresta amazônica.
Consequências ecológicas e epidemiológicas
O documento técnico enfatiza que a pavimentação desta estrada pode provocar sequências de desdobramentos ecológicos adversos, dado que os reservatórios microbianos que existiram sob proteção ambiental por longos períodos poderão ser expostos.
“A perturbação desses sistemas pode desencadear sérios desdobramentos ecológicos e epidemiológicos”, afirmou Lucas Ferrante, biólogo que coordenou o estudo.
A pesquisa também aponta que tanto a BR-319 quanto a mineração de potássio impactam reservatórios microbianos específicos, sendo que as licenças ambientais atuais representam um risco à saúde pública. A abordagem do governo sobre a flexibilização do licenciamento ambiental tem sido amplamente criticada, levando os pesquisadores a pedirem a revogação da legislação que facilita estas aprovações.
Além disso, a nota técnica denuncia que a não demarcação de terras indígenas e a abertura de seus territórios para exploração industrial não só ameaça as comunidades indígenas, mas aumenta o risco sistêmico à saúde pública global, ao expor reservatórios microbianos que não haviam sido contaminados anteriormente.
Desafios políticos e sociais
A BR-319, com mais de 850 quilômetros de extensão, é uma via construída durante a ditadura militar e se estende por 13 municípios e 42 Unidades de Conservação. Historicamente, a rodovia tem sido um ponto de discórdia entre o desenvolvimento econômico e a proteção ambiental.
O presidente Lula recebeu orientações para avançar com o asfaltamento em diálogo com ambientalistas, mas a oposição se intensifica, especialmente após a ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, ter enfrentado críticas no Senado relacionadas ao suposto atraso no desenvolvimento do Brasil.
Dados de novembro revelaram que mais de 2.240 quilômetros de estradas ilegais estão adentrando áreas protegidas, resultando em desmatamento e degradação ambiental. A continuidade do asfaltamento da BR-319 é, portanto, vista como um potencial catalisador para um maior desmatamento e impactos ecológicos severos.
A nova postura do licenciamento
Especialistas advertiram que o novo modelo de licenciamento, que prioriza empreendimentos do governo, tende a facilitar ainda mais a exploração de recursos na região, desde petróleo até mineração e agropecuária. A versão atual da Medida Provisória carne os prazos de análise e expectativa para a obtenção de licenças, não só para a BR-319, mas para um conjunto mais amplo de projetos.
Defensores da BR-319 argumentam que a obra é vital para reduzir o isolamento da capital do Amazonas, contudo, analisando os dados, podemos ver que o risco associado a essa declaração é substancial, diante dos efeitos deletérios que já estão sendo documentados por pesquisadores.
À medida que os debates sobre a implementação da travessia se intensificam, a comunidade científica e o público em geral permanecem vigilantes sobre os desdobramentos que podem afetar não apenas a Amazônia, mas também a saúde de todos os brasileiros.