Carne argentina em foco: Oportunidades e desafios do Mercosur
A carne bovina é um alimento central nas mesas argentinas, sendo vital para a gastronomia local e uma referência cultural. No entanto, o recente acordo entre a União Europeia e o Mercosur gerou intensos debates, especialmente entre os agricultores europeus que questionam as possíveis consequências da redução de tarifas de importação para a carne sul-americana.
No Mercado Agropecuário de Cañuelas, o maior do país e um símbolo do setor, o otimismo é palpável. Em 2025, cada argentino consumiu, em média, 49 quilos de carne bovina, muito acima da média de consumo na Europa. Os produtores argentinos, que exportam atualmente uma pequena fração de sua produção, estão se preparando para um cenário onde a carne pode ser exportada com menos barreiras tarifárias.
Atualmente, a Argentina exporta cerca de 29.000 toneladas de carne bovina para a União Europeia, sob a quota Hilton, que implica tarifas de 20%. Com o novo acordo que se espera ser aprovado, o governo argentino prevê um aumento na cota de exportação para até 99.000 toneladas, com uma tarifa reduzida de 7,5%.
Porém, o consultor agropecuário Víctor Tonelli destaca que, apesar desse aumento de volume, o impacto real na Europa pode ser limitado. Segundo ele, o volume adicional é pequeno em comparação com o consumo europeu, e muitos temem que essa liberalização comercial acabe por afetar negativamente os produtores locais na Europa.
A reação dos agricultores da Europa tem sido de protesto, com manifestações em várias cidades, incluindo Bruxelas. Redes de supermercados, como o Carrefour, já anunciaram que não venderão carne da Argentina, Brasil, Paraguai e Uruguai. Apesar das movimentações políticas, Tonelli sugere que o fundo das reivindicações europeias não está necessariamente contra a carne sul-americana, mas sim contra a política agrícola local da UE, que impôs várias restrições aos agricultores europeus enquanto busca abrir mercados externos.
Os desafios que os produtores argentinos enfrentam incluem as rígidas normas de exportação para a União Europeia. Para atender aos critérios da quota Hilton, é necessário que os animais sejam criados a pasto e não em sistemas intensivos conhecidos como "feedlots", além de garantir que os produtos atendam a altos padrões de segurança alimentar. Somente 35 de 340 frigoríficos na Argentina estão habilitados para exportar para a UE, o que evidencia a competitividade e as exigências do mercado.
Os produtores brasileiros, que também fazem parte do Mercosur, observam de perto as implicações deste acordo. Isso porque, apesar dos desafios, a expectativa é de que haja uma ampliação do mercado, não só na Europa, mas também em outros países, como os Estados Unidos. As exportações de carne bovina para a China, por exemplo, já superam as 400.000 toneladas anuais, e essa dinâmica propõe uma luz de esperança para os produtores.
A carne bovina continua sendo um dos setores mais importantes da economia argentina. Em 2025, os preços no mercado interno aumentaram 70%, um reflexo da inflação significativa de 31,5% em comparação com o ano anterior. Essa situação mostra a pressão que os agricultores enfrentam dentro de um mercado em mudança e repleto de incertezas.
No geral, o futuro da carne argentina surge diante de uma bifurcação: se consolidar como personagem proeminente no mercado global ou lutar contra a resistência de produtores locais e políticas agrícolas na Europa. O desenrolar dos desdobramentos do acordo Mercosur-UE promete ser um tema central nos próximos anos.