Abusos em Diplomacias Mexicanas: Denúncias Ignoradas e Impunidade
Recentes denúncias de abusos em sedes diplomáticas do México levantam preocupações sobre a impunidade de cónsules e embaixadores em diversas representações no exterior. Desde o Consulado do México em Los Angeles, Califórnia, surgem relatos alarmantes de funcionários que enfrentaram condições severas e abusivas de trabalho.
Funcionários como Lidia, que denunciou um cónsul nos Estados Unidos, ainda precisaram lidar com mais dois anos de trabalho sob suas ordens. Outro caso envolveu Raúl, que foi alertado sobre um ambiente de trabalho notoriamente tóxico em seu novo destino. Ex-funcionários, como três mulheres que denunciaram Jorge Islas, ex-cônsul de Nova York, mencionam um padrão de "violência generalizada" que persiste sem consequências.
O jornal EL PAÍS divulgou nove depoimentos de trabalhadores em ações diplomáticas que relataram abusos e violência no ambiente laboral, sem que houvesse resposta efetiva da Secretaria de Exteriores (SRE). Em muitos casos, apenas cursos foram sugeridos para os denunciantes, o que gera frustração e indignação entre os afetados.
Além disso, a saída da embaixadora Josefa González-Blanco do Reino Unido, que enfrentou 16 denúncias, voltou a evidenciar a cultura de silêncio e impunidade. "As denúncias são um segredo a vozes dentro da Cancelleria", afirmam fontes internas, que indicam um padrão claro de evasão.
O Papel da Secretaria de Exteriores
A Secretaria de Exteriores, por sua vez, emitiu um comunicado superficial dizendo que atende todas as denúncias apresentadas. Contudo, um em cada três embaixadores foi nomeado por motivos políticos, e cerca de 24 de 80 embaixadas estão sob comando de indivíduos sem formação diplomática.
Uma fonte da Cancelleria aponta que a falta de responsabilização por parte dos altos funcionários cria um ambiente em que os casos de abuso se tornam comuns, enquanto o Comitê de Ética e o Órgão Interno de Controle (OIC) mantêm suas investigações, mas sem medidas efetivas que levem a sanções.
Casos Alarmantes de Abuso
O relato de Lidia ilustra os problemas enfrentados: "Ele me isolou completamente e pediu que um segurança ficasse de olho em mim". O resultado desse tipo de assédio é frequentemente devastador, levando a problemas de saúde mental, como ataques de pânico, que foram experienciados por Lidia. Outras reclamações ecoam o mesmo sentimento de desespero e impotência.
Raúl, que relata estar ciente da toxicidade de seu novo local de trabalho, menciona que "todos estão informados, mas ninguém se responsabiliza". Denúncias contra os consulados em Nogales, Nova York, Austin, Denver e Santa Ana continuam sem resolução, mesmo diante de múltiplas queixas sobre o comportamento abusivo de funcionários em cargos de poder.
Exemplos incluem Pavel Meléndez, que, apesar de ter inúmeras denúncias por maltratos, ainda ocupa seu cargo na embaixada em Denver, demonstrando uma preocupante normalização do abuso dentro da estrutura diplomática.
A Cultura do Silêncio
A cultura de silêncio é alimentada pela falta de medidas disciplinares efetivas. A maioria dos funcionários sufocados pela intimidação e pela ausência de proteções está saindo de suas funções, queixando-se de que a única resposta da administração é o encorajamento para "aguentar" até que o titular seja transferido.
Alguns casos resultaram em demissões raras, como a de Roberto Valdovinos, do Instituto de Mexicanos no Exterior, em 2020, mas isso é a exceção e não a regra. Uma ex-funcionária afirma que as redes sociais se tornaram sua última esperança:
"Exaustamos todos os recursos institucionais; foram as redes sociais que nos salvaram".
Atualmente, Jorge Islas exerce suas funções como professor na UNAM e advogado, enquanto a ausência de ações efetivas da Secretaria de Exteriores continua a perpetuar um ciclo de impunidade e medo entre os funcionários das representações diplomáticas.