Trump muda discurso sobre soldados britânicos na guerra do Afeganistão
Rafa de Miguel | Londres
Após declarações polêmicas que desmereceram o papel das tropas britânicas na guerra do Afeganistão, o ex-presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, voltou atrás e elogiou a bravura dos soldados do Reino Unido. Na última quinta-feira, durante o Fórum Econômico Mundial em Davos, Trump afirmara que as tropas britânicas “se ficaram na retaguarda, longe da primeira linha de batalha”, o que provocou a indignação do primeiro-ministro britânico, Keir Starmer, conhecido por suas respostas mais contidas em relação a Trump. Dois dias depois, em sua rede social Truth, o ex-presidente fez uma reviravolta: “Os grandes e muito valerosos soldados do Reino Unido [...], estiveram entre os mais grandes de aqueles guerreiros”.
Dados históricos mostram que 3.609 militares perderam a vida em ações de combate durante a intervenção no Afeganistão, sendo 1.144 deles tropas não americanas, ou quase um em cada três, segundo informações do Icausalties. Essa base de dados compila todas as mortes militares no Afeganistão com dados de diversos meios de comunicação e comunicados oficiais.
A intervenção dos Estados Unidos no Afeganistão começou após os atentados de 11 de setembro de 2001, realizados pela Al Qaeda. Na época, o país asiático era governado pelo Talibã, que deu abrigo a Osama Bin Laden, o autor dos ataques. A operação envolveu 42 países da OTAN, com 31 deles registrando baixas em combate. O número de soldados britânicos mortos chegou a 457, seguido por Canadá (159), França (90) e Alemanha (62), enquanto a Espanha perdeu 35 soldados em um acidente aéreo.
Do total de baixas, 90% ocorreram entre 2001 e 2014. A missão foi liderada pela Força Internacional de Segurança (ISAF), sob a égide da ONU, com o objetivo de estabilizar o país. Em 2014, o foco das forças aliadas mudou, renunciando o objetivo de criar um novo regime e passando a treinar tropas afegãs para garantir a segurança do país. Pol Bargués, pesquisador do Centro de Assuntos Internacionais de Barcelona (CIDOB), aponta que os anos mais críticos da operação foram entre 2008 e 2010, quando ainda se buscava estabilizar o território afegão, mas não se obteve sucesso. Em anuência a isso, os aliados decidiram começar um processo de retirada.
Após mais de duas décadas de conflito, as tropas aliadas se retiraram entre maio e agosto de 2021 sem conseguir derrotar o regime talibã. Félix Arteaga, especialista em Segurança e Defesa do Real Instituto Elcano, avalia que a intervenção nunca teve como objetivo a reconstrução do Afeganistão. Para ele, foi “uma operação militar em que a maioria dos soldados perderam a vida nos primeiros anos”, caracterizando-a como uma intervenção fracassada que perdurou 20 anos.
Sobre as últimas declarações de Trump, tanto Arteaga quanto Bargués concordam que o ex-presidente cometeu um erro. Arteaga afirmou que as palavras de Trump são um “insulto” e ressaltou que as tropas britânicas estiveram tão próximas do front quanto os soldados americanos. Bargués condena as afirmações de Trump como “uma rotunda mentira”, enfatizando que tal retórica busca desmerecer os aliados europeus e representá-los como os responsáveis pelo fracasso da missão. "A OTAN nunca conseguiu penetrar as zonas mais remotas do país, isso é verdade. Mas a ideia de que os EUA fizeram tudo certo e a OTAN não é essencialmente uma inverdade. Trump inventa isso para acusar os aliados e proteger a imagem dos EUA como vitoriosos”, detalha Bargués.
O investigador do CIDOB sugere que o fracasso da missão se deveu a múltiplos fatores. Ele destaca a importância do apoio de governos locais, que no caso do Afeganistão nunca foi alcançado para além da região de Cabul. Além disso, sublinha que ter objetivos claros e realizáveis é crucial. “Não se obtêm melhores resultados apenas pelo aumento de recursos”, completa.
Por fim, Bargués menciona que o ex-presidente Biden reconheceu que um dos problemas da intervenção teve relação com a ambição excessiva dos objetivos propostos, prometeram que não se envolveriam em mais tentativas de "nation building", entendidas como a construção de um estado desde fora. Para Arteaga, o “fracasso” da guerra do Afeganistão e a postura de Trump geram um sentimento de desconfiança em relação aos Estados Unidos, o que pode acentuar o distanciamento entre os aliados no futuro.