Mulheres denunciam abusos de ex-padre condenado em Minas Gerais
Um grupo de mulheres que afirma ter sido abusado pelo ex-padre Bernardino Batista dos Santos, conhecido como "Santo do Paraíso", está buscando novas vítimas para que relatem suas experiências traumáticas. Bernardino foi condenado a 24 anos de prisão por estupro de vulnerável e é acusado de ter abusado de pelo menos 73 mulheres desde a década de 1980.
As vítimas relatam suas dificuldades emocionais e a necessidade de apoio e justiça. A defesa do ex-padre ainda não se manifestou sobre as novas denúncias.
Bárbara Martins, uma das vítimas, recorda que foi abusada quando tinha apenas 4 anos durante um passeio escolar em um sítio na região de Minas Gerais, propriedade do então padre. Ela descreve uma situação em que, cercada por outras crianças e sob a observação de professora, Bernardino a retirou do grupo e a levou para um local isolado, onde ocorreu o abuso.
— Eu me lembro do peso do corpo dele e da barba. Depois disso, eu tive um apagão — relata Bárbara, que ressalta que se sentiu insegura em relatar o caso na época, mesmo com outras professoras presentes.
Bernardino, atualmente com 78 anos, havia sido afastado da Arquidiocese desde 2021 e condenado em janeiro deste ano por abusar de uma criança de 3 anos. O caso dele ressurge as tensões e inseguranças em relacionamentos que as vítimas enfrentaram ao longo da vida.
Cibele Itaboray, outra vítima, recorda seu próprio caso de abuso, ocorrido em 1983, antes de completar 9 anos. Ela conta que o ex-padre a chamou para uma sala e, após trancar a porta, abusou dela. Ele tinha certeza de que sua atuação seria difícil de ser contestada, já que se apresentava como uma figura respeitável na comunidade.
As histórias são dolorosas e revelam traumas prolongados. Carolina Rocha, uma advogada de 34 anos, é uma das principais responsáveis por buscar outras mulheres que também passaram pelo mesmo sofrimento. Ela conta que seu encontro com Bernardino aconteceu quando tinha apenas 8 anos, em um sítio onde o padre a convidou para "aconselhá-la" em um momento em que sua família enfrentava dificuldades.
— Ele era uma pessoa acima de qualquer suspeita e tinha um prestígio muito grande na época. Meu relato foi considerado um delírio infantil, mas eu sabia que tinha acontecido — desabafa Carolina, que leva o peso da desconfiança ainda maior por parte da sociedade à época dos fatos.
As três mulheres afirmam que enfrentaram sérios problemas de relacionamentos e dificuldades em aceitar seus corpos ao longo dos anos, devido aos traumas vividos. Elas falam sobre a demora em buscar ajuda e o impacto negativo em suas vidas.
A iniciativa de reunir novas denúncias busca quebrar o silêncio. O grupo de vítimas está ativamente buscando por relatos de mulheres que também tenham sido abusadas por Bernardino, acreditando que é possível encontrar mais vítimas que não se manifestaram por conta do medo e da desconfiança nas instituições de apoio.
— Estamos confiantes de que existem novas vítimas que podem se manifestar agora, especialmente após a prisão dele. Queremos que elas quebrem o silêncio e encontrem apoio — comenta Carolina, enfatizando a esperança de que novas denúncias possam fortalecer o processo de justiça.
Desde sua última prisão em janeiro, Bernardino está sob monitoramento por tornozeleira eletrônica. As integrantes do grupo temem que ele possa ser liberado novamente, o que as motiva a continuar a busca por pessoas que tenham passado por situações similares. Elas acreditam que a voz coletiva pode iluminar o caminho para a justiça e a cura desejada.