Neve em Mato Grosso: O fenômeno raro que surpreendeu em 1975
O clima tropical de Mato Grosso, conhecido pelo calor intenso, foi surpreendido em julho de 1975 com a ocorrência de neve. Este evento raro, que se deu antes da divisão do estado, registrou temperaturas de até 2,4°C abaixo de zero. A massa de ar frio intensa que atingiu a região, associada a precipitações climáticas, causou um fenômeno que deixou os moradores desnorteados.
Na época, regiões como Ponta Porã e Bandeirantes, hoje pertencentes ao estado de Mato Grosso do Sul (MS), ainda faziam parte do Mato Grosso. Com a chegada do frio, as cidades amanheceram cobertas por uma fina camada de gelo, levando os moradores a sair de casa para presenciar um acontecimento inédito. O silêncio das manhãs foi quebrado pelos passos curiosos das pessoas, que confirmaram que realmente tinha nevado.
Relatos do Arquivo Público de Mato Grosso e jornais da época documentam os impactos daquela onda de frio, que culminou com um decreto do governo, alocando 200 mil cruzeiros para ajudar a Prefeitura de Campo Grande nos custos dos danos causados pela geada. Agricultura, pecuária e outras culturas, como a cafeicultura, sofreram grandes perdas, com muitas lavouras sendo destruídas.
Entre os que testemunharam a neve, o meteorologista Natalio Abraão lembra do evento com detalhes. Em 1975, ele era um jovem profissional no setor de Proteção ao Voo, responsável por monitorar as condições climáticas que poderiam afetar a aviação. Abraão recorda ter visto a neve pela primeira vez, um acontecimento que o impressionou profundamente. "É uma coisa que impressiona, né? Eu já tinha visto geada, mas a neve caindo do céu era novidade", disse.
Com essa faixa de temperaturas extremas, a pressão atmosférica na região chegou a surpreendentes 1035 hPa, um indicativo das condições favoráveis para uma queda acentuada das temperaturas. Segundo o meteorologista Guilherme Borges, o evento de 1975 foi resultante da combinação de uma massa de ar frio continental e precipitações sobre a camada de ar frio, o que possibilitou a queda de neve naquela manhã histórica.
Embora a possibilidade de nova ocorrência de neve em Mato Grosso seja vista como rara, não é impossível. Borges explica que a combinação de uma massa de ar polar bem potente, uma camada de ar frio próxima à superfície e precipitações são fatores necessários para a formação de neve. Contudo, as mudanças climáticas atuais, com um clima mais seco e quente, tornam esse fenômeno cada vez menos provável.
A história da neve em 1975 é, segundo a pesquisadora do Núcleo de Pesquisa em História da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), Juliana Rosa, um exemplo de como o clima da região pode ser enganoso e as variações climáticas podem ocorrer. Juliana destaca que eventos semelhantes podem ter acontecido em outros momentos, embora não documentados da mesma forma. O contraste entre o clima quente da capital Cuiabá e o clima mais ameno de cidades do sul do estado, como Dourados e Bandeirantes, também deve ser considerado nesse contexto.
A divisão do estado, que se concretizou em 11 de outubro de 1977, é mencionada por Juliana como um episódio que evidencia as diferenças culturais e sociais entre as regiões. Havia, segundo a pesquisadora, uma percepção de que os habitantes de Mato Grosso do Sul viam a formação do novo estado como uma nova oportunidade, enquanto os de Mato Grosso enxergavam essa divisão como a perda de um território.
Esses relatos e reflexões sobre o épico fenômeno de 1975 não servem apenas para recordar um evento inusitado, mas também para salientar a importância de entender as dinâmicas climáticas da região e suas consequências ao longo do tempo. Com as mudanças climáticas e o aquecimento global, é essencial continuar monitorando como esses fatores irão impactar nosso clima e as futuras gerações.