Cálculos, limites e segurança: entenda como funciona a decisão de abortar a decolagem de um avião
No último domingo (15), um Boeing 777-300 da Latam, com capacidade para 400 pessoas, abortou a decolagem instantes após iniciar a subida no Aeroporto Internacional de São Paulo, em Guarulhos. Não houve feridos entre os passageiros, mas o incidente gerou pânico a bordo, evidenciado por um vídeo divulgado pelo canal do Youtube Aviação Guarulhos que registrou o momento.
Especialistas explicam que interromper uma decolagem, apesar de assustador, é um procedimento normal e seguro. A decisão de abortar não é feita de forma improvisada, mas sim embasada em cálculos técnicos e protocolos de segurança estabelecidos antes mesmo da aeronave entrar na pista. Diversos limites são previamente definidos, os quais variam conforme as condições da aeronave e do aeroporto.
Como funciona: De acordo com o Regulamento Brasileiro da Aviação Civil, estabelecido pela Agência Nacional de Aviação Civil (ANAC), toda decolagem deve ser planejada a partir de uma velocidade específica, chamada velocidade de decisão. Essa medida determina até que ponto é seguro abortar e a partir de qual momento a aeronave deve prosseguir com a decolagem, mesmo diante de uma falha.
Conforme a ANAC, um procedimento de abortagem pode ocorrer em qualquer fase, após o início da contagem regressiva ou da decolagem. As razões podem incluir erros humanos, falhas técnicas ou meteorológicas.
Em relação ao voo da Latam, a companhia não divulgou o motivo do abortamento, mas passageiros reportaram que o piloto informou um superaquecimento do motor. O Boeing já estava em alta velocidade e começara a se elevar quando houve uma frenagem abrupta. Para garantir a segurança, bombeiros foram acionados para resfriar os pneus.
Segundo o comandante Décio Correa, presidente do Fórum Brasileiro para o Desenvolvimento da Aviação Civil, com a indicação de superaquecimento, não havia como arriscar. "No caso do Boeing 777-300, que é bimotor, a segurança deve prevalecer, especialmente se há indicação de temperatura alta que possa comprometer a aeronave", afirmou.
Ele também ressaltou que abortar uma decolagem é uma decisão que qualquer piloto tomaria. Apesar de causar pânico, é um procedimento que visa a segurança, assim como a arremetida. "Qualquer indicativo de problema que se tenha no avião deve motivar uma arremetida ou abortagem", enfatizou.
A decisão de abortar envolve uma série de fatores que o piloto precisa avaliar, como o comprimento da pista, a temperatura e o peso da aeronave. Com esses dados, é estabelecida uma velocidade que permite a parada segura da aeronave. Esta velocidade é chamada de V1, ponto onde é ainda seguro abortar a decolagem. Caso o piloto procrastine essa decisão, os freios podem superaquecer, complicando ainda mais a situação.
A velocidade ideal: A velocidade V1 não é fixa; sua determinação é feita pelo computador de bordo da aeronave, tendo em vista as especificidades do voo. Diversos critérios são considerados, como:
- Peso da aeronave: Quanto mais pesada, maior a velocidade necessária para a decolagem.
- Condições da pista: Tamanho, inclinação, umidade, entre outros fatores influenciam.
- Altitude e condições atmosféricas: Um ar menos denso exige velocidades maiores.
O computador busca um equilíbrio entre as condições mencionadas e define a velocidade V1 para cada situação. Por isso, não existe uma velocidade padronizada; ela é adaptada a cada voo e aeroporto.
Correa, que tem experiência na área, afirmou que a avaliação desses fatores é crucial para a segurança. Se o abortamento ocorrer antes da V1, o piloto pode conseguir parar a aeronave de forma segura. Porém, se o problema ocorrer após essa fase, a situação se torna complicada, e a aeronave deve prosseguir com a decolagem.
No caso o voo da Latam, o piloto agiu corretamente ao abortar a decolagem. Um vídeo do incidente mostra o avião, que estava programado para Lisboa, iniciando a decolagem, mas depois sendo instruído a abortar. Após o abortamento, a aeronave se dirigiu para uma área segura onde os procedimentos de segurança estavam em vigor.
Bruna Pedrazzi, uma passageira a bordo, relatou momentos caóticos, com pessoas em estado de pânico: "Na hora em que o avião começou a subir, foi como se um prédio tivesse despencado. Foi assustador, mas percebendo pelas imagens, não foi tão intenso".
A posição da Latam: Em nota, a LATAM Airlines Brasil informou que a aeronave interrompeu a decolagem de acordo com os protocolos de segurança, sem feridos, e que todos os clientes receberam assistência adequada, incluindo reacomodações em hotéis e reprogramação de voos. A empresa reiterou seu compromisso com a segurança em todas as suas operações.
A posição da GRU Airport: A concessionária que administra o aeroporto também confirmou que a decisão foi baseada em procedimentos padrão de segurança, e que a equipe de combate a incêndio foi mobilizada. A aeronave foi isolada em uma área segura, e as operações do aeroporto seguiram sem interrupções.