Novo Centro Administrativo de SP: Leilão marca avanço do projeto
O projeto do Novo Centro Administrativo em São Paulo, uma das promessas de campanha do governador Tarcísio de Freitas, será licitado nesta quinta-feira (data não divulgada) e visa transferir a sede do governo para os Campos Elíseos, uma área central da capital paulista. Com um custo estimado em R$ 6 bilhões, o projeto contempla a construção de sete edifícios e a desativação do Terminal Princesa Isabel.
A proposta de mudança está prevista para culminar em 2030 e busca revitalizar a região, contudo, levanta discussões sobre desapropriações e o impacto social asociado ao deslocamento de residentes e comerciantes locais. O leilão será realizado na B3 e a seleção contemplará empresas que construirão e gerir o complexo por um período de 30 anos.
Na última segunda-feira, dois consórcios apresentaram propostas para a obra, ambos através de Parceria Público Privada (PPP). Um dos consórcios é formado pela Acciona e pela Construcap, enquanto o outro, chamado Consórcio MEZ-RZK Novo Centro, abrange cinco empresas: Zetta Infraestrutura, M4 Investimentos, Engemat, RZK Empreendimentos Imobiliários e Iron Property. O investimento conjunto entre o estado e a iniciativa privada será de R$ 6 bilhões, e o novo espaço contará com uma área de 25 mil metros quadrados destinada a comércio, além do restauro de 17 edifícios tombados e a construção de uma nova estação para substituir o Terminal Princesa Isabel, que atualmente atende 16 linhas de ônibus.
Estima-se que cerca de 22 mil funcionários do governo, que hoje estão alocados em 40 prédios diferentes, serão realocados para o novo centro. A empresa vencedora do leilão ficará responsável pela gestão e manutenção do complexo, incluindo a ocupação dos espaços comerciais que serão criados no local.
"Um projeto de Estado", afirma Tarcísio de Freitas
O secretário de Projetos Estratégicos de São Paulo, Guilherme Afif, que lidera o desenvolvimento do Novo Centro Administrativo, destaca que o projeto é uma recuperação da história do bairro Campos Elíseos, criado por engenheiros alemães e que atualmente enfrenta desafios como a criminalidade e a presença de áreas degradadas. Afif enfatiza que o novo centro será integrado ao tecido urbano, promovendo a circulação de pessoas e evitando a criação de um enclave isolado.
O design arquitetônico do complexo foi elaborado pelo escritório Ópera Quatro, vencedor de um concurso promovido pelo governo em 2024. O arquiteto Pablo Chakur explicou que a inspiração veio de projetos internacionais de revitalização urbana, como a Potsdamer Platz, em Berlim, que transformou uma área fragmentada em um novo polo de instituições e espaços públicos.
O projeto foi concebido para oferecer permeabilidade e acessibilidade, incluindo térreos ativos, praças abertas ao público e conexões com o transporte coletivo. O principal objetivo é garantir que a área funcione como uma extensão da cidade e não como uma barreira.
A empresa selecionada no leilão terá que seguir rigorosamente o projeto urbanístico vencedor, e a proposta escolhida será aquela que oferecer o maior desconto sobre a contrapartida mensal do governo, estimada em R$ 78 milhões.
Em 2024, a Secretaria da Justiça transferiu sua sede para o Palácio dos Campos Elíseos, local que já foi a sede do governo entre 1915 e 1967. O palácio, que passou por restaurações, também foi sede do Museu das Favelas, transferido posteriormente para o Páteo do Colégio. Embora o governo esteja se mudando para o centro, o governador continuará a manter um gabinete no Palácio dos Bandeirantes, que seguirá como residência oficial.
Tarcísio defende que o Novo Centro Administrativo não é apenas um projeto de governo, mas um projeto de Estado, enfatizando a importância da continuidade do mesmo independentemente da gestão que venha a sucedê-lo. Para ele, a concentração das atividades públicas em uma única localização permitirá maior eficiência e economia, uma vez que os novos edifícios serão projetados com tecnologia moderna e estarão próximos de uma extensa rede de transporte público.
Numa entrevista ao jornal GLOBO, o governador destacou que a iniciativa é parte de um esforço mais amplo de urbanização no centro da cidade, que inclui desde a desmobilização de áreas como a Cracolândia até a remoção de ocupações informais. Contudo, o alto custo e a complexidade do projeto geram debate sobre sua real necessidade, especialmente em um contexto de desafios sociais.
Segundo o historiador Renato Abramowicz Santos, crítico do projeto, ele questiona sua justificativa, argumentando que atuações semelhantes já estão sendo realizadas. "Estamos anunciando um imenso projeto, a um custo elevadíssimo, para fazer algo que, na prática, já acontece", opina.
Além disso, a transferência da sede do governo pode causar impacto significativo nas famílias e comerciantes da região, visto que cerca de 600 famílias em vulnerabilidade social serão afetadas pelas desapropriações realizadas pela empresa vencedora. Afif menciona que a gestão do projeto deve incluir uma oferta habitacional, mas a resistência ao projeto se deve à falta de clareza e diálogo quanto às desapropriações e à preservação da história local.
A afirmação de Abramowicz é que a busca por melhorias urbanísticas não deve condenar os moradores de longa data a perderem seus lares e suas histórias, questionando se é realmente possível realizar essas melhorias sem expelir as antigas comunidades que ali residem.