Jovem desaparecido durante ditadura é reconhecido oficialmente no Chile
A história de Luis Alberto Pino Soto, um adolescente de apenas 15 anos que desapareceu em 1986, ganha novos contornos com seu reconhecimento oficial como vítima da ditadura de Augusto Pinochet. A cerimônia de reconhecimento ocorreu em Arica, no norte do Chile, e trouxe à tona a luta de sua família, que buscou por justiça e verdade por mais de 40 anos.
Luís era um estudante do Liceu A-1 Octavio Palma Pérez e desapareceu em 1º de julho de 1986, no dia que antecedeu uma grande manifestação contra o regime militar. Naquele dia, ele saiu de casa para buscar um caderno na casa de um colega. O clima era tenso, pois uma greve nacional estava programada para os dias 2 e 3, exigindo a abertura dos registros eleitorais e a realização de eleições livres, o que resultou em forte repressão por parte do governo.
Quando Luís não retornou para casa, seus pais, Víctor Pino e María Soto, iniciaram uma busca desesperada e se dirigiram à polícia. Naquela época, a Carabinero se recusou a registrar a queixa, alegando que deveria haver um período de espera de 48 horas para formalizar uma denúncia de desaparecimento. Somente dois dias depois a Polícia de Investigação aceitou o caso.
A subsecretaria de Direitos Humanos do governo de Gabriel Boric revelou que a família enfrentou “ameaças, hostigamentos e silêncios institucionais” durante a busca por informações sobre Luís. Ao longo dos anos, surgiram testemunhos não judicializados que indicam que ele pode ter sido levado em um caminhão militar. O caso passou a ser investigado em 2024 pelo juiz Sergio Troncoso, após a família entrar com uma ação judicial.
O reconhecimento recente de Luís como uma das 1.469 pessoas desaparecidas durante a ditadura é resultado de uma correção de erro administrativo, uma vez que seu nome não constava nos registros do Informe Rettig, que documentou as violações de direitos humanos na época. Esse erro foi atribuído a uma incorreção de transcrição, onde seu sobrenome foi registrado como Pinto em vez de Pino.
Uma jornada de quatro décadas
No dia 27 de fevereiro de 2026, a cerimônia de reparação foi conduzida pelo ministro de Justiça Jaime Gajardo e pela subsecretária de Direitos Humanos Daniela Quintanilla, que entregaram à família de Luís documentos que formalizam seu status de vítima. A mãe de Luís, María Soto, teve a oportunidade de receber pela primeira vez o expediente judicial de seu filho.
"O Estado está corrigindo um erro profundo que se cometeu com Luis Alberto Pino Soto, sua família e com a memória da cidade de Arica", disse o ministro Gajardo durante a cerimônia.
A luta da família de Luís, que já havia tentado reconhecimento em 1990 e 1993, finalmente reverberou nos meios oficiais. Francisco Bustos, advogado de direitos humanos que acompanhou o caso, destaca que, apesar da dor e do sofrimento que a família enfrentou ao longo das décadas, esse reconhecimento é um passo importante para a reparação histórica.
Atualmente, o Plan Nacional de Busca de Detidos Desaparecidos, iniciativa do governo de Boric, visa reconstruir as trajetórias das vítimas, oferecendo um suporte que anteriormente foi negado. Com isso, além de Luís, outras 1.468 pessoas que permanecem desaparecidas começam a receber a devida atenção e respeito.
A história de Luis Alberto Pino Soto é um lembrete sombrio do que ocorreu durante os anos de repressão no Chile, mas também destaca a determinação e resiliência de uma família que nunca desistiu de buscar a verdade e justiça.