Primo revela tentativa de abuso por desembargador afastado
Saulo Láuar, de 42 anos, falou pela primeira vez sobre o caso após repercussão da decisão de Magid Nauéf Láuar que absolveu réu por estupro de vulnerável.
Saulo Láuar, servidor público e primo do desembargador afastado Magid Nauef Láuar, revelou tentativa de abuso sexual sofrida aos 14 anos, após a repercussão da decisão do magistrado em um caso de estupro de vulnerável. O afastamento de Magid pelo Conselho Nacional de Justiça (CNJ) e acusações semelhantes de outra vítima reacenderam o debate sobre a impunidade e a relativização desses crimes no Brasil. Saulo, em um desabafo nas redes sociais, destacou a importância de romper o silêncio.
O servidor público comentou sobre o afastamento do magistrado nesta sexta-feira, expressando uma "esperança no fim do túnel". Ele compartilhou uma postagem que destaca a decisão do CNJ de afastar o juiz do cargo. Em sua mensagem, ressaltou que as "exceções" da Justiça muitas vezes relativizam o crime de estupro de vulnerável, um crime que faz uma vítima a cada oito minutos no país.
Magid Nauef Láuar, magistrado da 9ª Câmara Criminal do Tribunal de Justiça de Minas Gerais (TJMG), foi afastado pela Corregedoria Nacional de Justiça. A Polícia Federal também lançou, nesta sexta-feira, uma operação que tem o desembargador como foco. Ele é o responsável pelo voto que inicialmente inocentou um réu em um caso de estupro de vulnerável, decisão esta que, posteriormente, foi revertida.
Saulo afirma que o magistrado tentou abusar sexualmente dele na adolescência, quando tinha 14 anos e trabalhava com o parente. Ao GLOBO, ele explicou que decidiu falar publicamente sobre o ocorrido após a repercussão da decisão de Magid Láuar. "Estava levando a minha vida com esse trauma da maneira que dava. Mas me vi na obrigação de não deixar isso passar e resolvi denunciar", contou ele, em sua primeira entrevista sobre o caso. "Nunca tinha falado sobre o que passei. Minha mãe só soube depois de anos, e mais ninguém. Era um segredo meu."
Em uma postagem que teve grande repercussão nas redes sociais, Saulo narrou que, embora o abuso não tenha se consumado, ele conseguiu fugir na última hora. "O que ele fez comigo causou muita tristeza. Uma tristeza latente. Ela fica ali, mistura-se com outras dores e alimenta outras dores. Além disso, também traz uma vontade de estar sempre fugindo, uma necessidade de me esconder o tempo todo", revelou.
Na mesma publicação, uma mulher comentou que também foi vítima do mesmo magistrado. Ela já foi ouvida pela Corregedoria do CNJ. O Tribunal de Justiça de Minas Gerais (TJMG) informou que recebeu uma representação relatando estes eventos e instaurou um procedimento administrativo para apurar possível falta funcional do magistrado. "Na época, eu e minha irmã trabalhávamos para a família dele. Eu era nova, confiava naquele lugar e guardei tudo em silêncio por muito tempo. Tentamos seguir a vida como se nada tivesse acontecido, mas não esquecemos. Esses traumas ficam guardados na memória, no corpo e na alma. Seu desabafo trouxe lembranças difíceis, mas também me fez perceber que o silêncio só protege quem errou. Hoje me recuso a continuar calada", escreveu a mulher na postagem de Saulo.