A ameaça do crime organizado na Amazônia
A presença crescente do crime organizado na Amazônia tem gerado preocupações alarmantes, especialmente em relação à segurança dos agentes do Ibama durante suas operações de fiscalização contra a exploração ilegal de madeira e o garimpo. Em Manicoré, no Amazonas, a situação tornou-se crítica quando fiscais foram emboscados por homens armados, evidenciando um aumento da violência na região.
Durante uma operação específica no último sábado, os agentes do Ibama tentavam apreender um caminhão utilizado para transportar madeira clandestinamente dentro da Terra Indígena (TI) Tenharim-Marmelos. Ao se depararem com a atividade ilegal, os fiscais foram atacados por um grupo de aproximadamente 30 homens armados, obrigando-os a se esconder na mata enquanto sua viatura era incendiada. Este incidente, que reflete um fenômeno crescente na região, destaca a insegurança enfrentada por aqueles que tentam proteger o meio ambiente.
Crescimento da criminalidade e o impacto nas operações
Nos últimos anos, episódios de violência semelhantes têm se repetido em diversas localidades amazônicas, particularmente em operações contra o garimpo ilegal e a exploração de madeira, onde há uma forte presença de organizações criminosas. A ação em Manicoré aconteceu enquanto os agentes realizavam uma fiscalização em ramais clandestinos utilizados para o escoamento de madeira ilegal. Durante a abordagem, embora tenham conseguido interceptar um dos caminhões, o número superior de atacantes impediu uma apreensão segura. Após o ataque, os fiscais conseguiram voltar à cidade de Humaitá e relatar o ocorrido à Polícia Federal (PF).
Um estudo realizado pelo Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon) em dezembro indicou que, entre 2023 e 2024, cerca de 42 mil dos 68 mil hectares usados para extração de madeira no Amazonas estavam sem a devida autorização, representando 62% do total. Os criminosos frequentemente utilizam um esquema de “lavagem de madeira”, onde autorizações de áreas distintas são usadas para justificar a comercialização de vegetação extraída ilegalmente, inclusive em terras indígenas. Embora nem toda a rede clandestina esteja ligada diretamente a facções do narcotráfico, grupos dessa natureza vêm cada vez mais investindo nesse tipo de crime, atraídos pela alta lucratividade e pela facilidade de ocultar dinheiro oriundo de outras atividades ilícitas.
A voz dos especialistas e o cenário atual
Procurado pelo GLOBO, o Ibama não possui dados específicos sobre ataques a seus servidores. No entanto, o diretor de Proteção Ambiental do órgão, Jair Schmitt, confirmou a escalada da violência na região, afirmando que o perfil criminal mudou significativamente ao longo do tempo: — "Estou há 24 anos no Ibama, conheço bem a Amazônia, e hoje o perfil criminal é totalmente diferente. O aumento do número de ataques é evidente, e os servidores estão cada vez mais expostos." Schmitt aponta a chegada das facções à região como um dos fatores determinantes para essa situação crítica, resultando na necessidade de um planejamento cauteloso antes de cada operação.
— O crime organizado tem se arvorado na Amazônia, principalmente na mineração e exploração madeireira — destaca Schmitt.
A escalada da violência também se torna evidente em operações na Terra Indígena Yanomami, onde os fiscais do Ibama enfrentaram ataques com armas de fogo em diversas ocasiões. O trânsito de envolvidos em atividades ilegais, após serem reprimidos em uma área, tem migrado para outras regiões como a Terra Indígena Sararé, no Mato Grosso, que se tornou uma das mais desmatadas.
A luta contra o crime ambiental
Durante a pesquisa, também foi destacado que a hostilidade se intensificou ao longo do tempo. Em dezembro passado, por exemplo, equipes do Ibama e da Funai foram atacadas em uma operação de desintrusão, resultando na morte de um colaborador. Somente no ano passado, ao menos sete confrontos armados ocorreram em ações contra o garimpo na Floresta Nacional do Jamari, onde 12 suspeitos foram detidos. O aumento da criminalidade tem gerado um pânico generalizado entre os agentes que atuam na região.
— É uma guerra na floresta, uma guerra contra o crime ambiental praticado por grupos extremamente poderosos e organizados, do Brasil e de fora — alerta Binho Zavaski, diretor da Associação dos Servidores da Carreira de Especialista em Meio Ambiente do Distrito Federal (Asibama-DF).
Enquanto os desafios aumentam, servidores do Ibama estão buscando negociações para obter uma Gratificação de Atividade de Risco (GAR), além de pleitear melhorias nas condições de trabalho e segurança. A sensação de impunidade e a pressão por mudanças legislativas que favoreçam a regularização de atividades ilícitas ainda são preocupações que permeiam o cenário da Amazônia.
Histórico recente de violência na Amazônia
- Fevereiro de 2023: Quatro garimpeiros morreram em confronto com o Ibama e a Polícia Rodoviária Federal (PRF) na Terra Indígena Yanomami.
- Agosto de 2023: Uma equipe do Ibama foi atacada durante fiscalização na Área de Proteção Ambiental do Tapajós.
- Setembro de 2023: Fiscais do ICMBio e policiais foram alvo de ataques na Floresta Nacional de Aripuanã.
- Junho de 2025: Agentes do ICMBio na Reserva Extrativista Chico Mendes enfrentaram ataques regulares.
- Setembro de 2025: Troca de tiros entre garimpeiros do CV e agentes do Ibama na Terra Indígena Sararé.
- Dezembro de 2025: Um colaborador do Ibama foi morto enquanto apoiava operações de desintrusão na Terra Indígena Apyterewa.