Tenente-coronel da PM de SP é o primeiro oficial preso por feminicídio
O tenente-coronel Geraldo Neto, acusado de matar sua esposa, a soldado Gisele Alves, foi preso nesta quarta-feira (18) pela Corregedoria da Polícia Militar em São José dos Campos, no interior do estado de São Paulo. A Justiça o tornou réu por feminicídio e fraude processual após investigações que apontaram como ele teria alterado a cena do crime para simular um suicídio.
Esse caso é especialmente alarmante, pois Geraldo se torna o primeiro oficial da Polícia Militar do estado preso por feminicídio desde a sanção da lei em 2015. O secretário-executivo da Secretaria da Segurança Pública (SSP), coronel Henguel Pereira, confirmou essa informação durante uma coletiva de imprensa.
"Esse é um caso atípico, pois se trata de um feminicídio envolvendo um policial feminino também. É um crime de militar contra militar", afirmou Henguel.
As autoridades esclareceram que a morte da soldado Gisele ocorreu após uma discussão no apartamento do casal, localizado no Brás, no centro de São Paulo, em 18 de fevereiro. Gisele, de 32 anos, foi encontrada morta com um tiro na cabeça, enquanto Geraldo, de 53 anos, nega qualquer envolvimento no crime.
Geraldo foi denunciado por feminicídio, que se refere ao assassinato de uma mulher em razão de seu gênero, após evidências coletadas pela Polícia Civil e pela Corregedoria apontarem sua responsabilidade. O tenente-coronel foi acusado também de fraude processual por ter modificado a cena do crime.
O contexto do feminicídio no Brasil
No Brasil, o feminicídio passou a ser um tipo penal em 2015 com a criação da Lei 13.104, que passou a incluir o crime como uma circunstância qualificadora do homicídio. Essa categoria penal define que o crime ocorre em contextos de violência doméstica, familiar ou em decorrência de discriminação. A punição para o feminicídio variou de 12 a 30 anos, com a nova lei enfatizando a gravidade do crime.
Em 2024, o Congresso Nacional aprovou a Lei 14.994, que transformou o feminicídio em um crime autônomo, estabelecendo penas de 20 a 40 anos, além de acelerar tramitações processuais relacionadas.
O estado de São Paulo registrou em 2025 o maior número de feminicídios desde o início da série histórica em 2018, com 270 ocorrências ao longo do ano, o que representa uma média de um assassinato a cada 32 horas. Em 2024, o número foi de 246 casos. Essa situação requer uma atenção especial das autoridades e da sociedade.
Ações das autoridades contra o feminicídio
O secretário-executivo da SSP, Henguel Pereira, ressaltou que o governo paulista tem feito esforços para lidar com a crescente violência de gênero, incluindo ações como o fortalecimento das Delegacias de Defesa da Mulher (DDMs), que hoje somam mais de 140 unidades no estado. Ele enfatizou a importância do atendimento humanizado e do trabalho conjunto entre as forças de segurança.
"Estamos passando por uma mudança cultural aqui, focada no atendimento adequado às vítimas de violência", apontou Henguel.
Além disso, foram implementados programas de monitoramento e proteção às mulheres ameaçadas, com o uso de tornozeleiras eletrônicas em infratores que não podem se aproximar de suas vítimas.
Durante a coletiva, o clima entre os representantes das forças de segurança era de lamento e indignação com a prisão de um colega acusado de um crime tão sério. O coronel José Coutinho, comandante da Polícia Militar do estado, destacou que a PM enfrenta um desafio ao lidar com a imagem da corporação após a repressão a um dos seus integrantes.
"A PM sai maculada disso, mas não faremos distinções entre criminosos, independentemente de quem sejam", afirmou o coronel Coutinho.
O caso do tenente-coronel Geraldo Neto se tornará um importante referencial nas discussões sobre feminicídio e a responsabilização de agentes da lei envolvidos em crimes dessa natureza.