Desde a eclosão do escândalo do Master, surgiram indícios de que o dono do banco, Daniel Vorcaro, construiu uma rede de relacionamentos com integrantes dos Três Poderes, por meio da distribuição de favores e da contratação de consultorias milionárias, para viabilizar uma das maiores fraudes bancárias da história do país. A descoberta de um caso de tamanha proporção, que deixou um rombo de pelo menos 50 bilhões de reais, espalhou pânico entre certas autoridades. Em reação, elas passaram a articular uma operação abafa em diversas frentes, da tentativa de atrapalhar o trabalho de investigação da Polícia Federal (PF) ao engavetamento da proposta de criação de uma CPI sobre o tema no Congresso.
Em Brasília, um biombo poderoso foi montado a fim de evitar que figurões da República sejam investigados e punidos por participação na falcatrua. Na quinta-feira, 7 de maio de 2026, no entanto, esse dique começou a ruir. A PF avançou na investigação, realizando buscas e apreensões em endereços do senador Ciro Nogueira (PI), presidente do Progressistas.
Nogueira não é um político qualquer; ele foi ex-aliado de Lula e Dilma Rousseff e ministro da Casa Civil de Jair Bolsonaro, quando controlava a planilha do chamado orçamento secreto e a relação do governo com os parlamentares. Nos últimos anos, ele negociou a formação de uma federação entre seu partido e o União Brasil, resultando na agremiação com mais deputados federais e mais recursos do fundo eleitoral, tornando-se também o dote mais cobiçado pelos candidatos a presidente da República em 2026. Hábil nos bastidores e bem relacionado com agentes econômicos, Nogueira é o expoente máximo do Centrão e um dos congressistas mais influentes do país.
Se ele entrou na mira da PF, é sinal de que a apuração pode alcançar todo e qualquer figurão. A investida sobre o senador foi autorizada pelo relator do caso no Supremo Tribunal Federal (STF), ministro André Mendonça. Numa decisão de 36 páginas, ele resumiu o quadro: "Referido investigado é indicado como destinatário central das vantagens indevidas e como agente público que, em tese, instrumentalizou o exercício do mandato parlamentar em favor dos interesses privados de Daniel Vorcaro".
Ciro Nogueira havia apresentado uma emenda destinada a ampliar de 250 mil reais para 1 milhão de reais a cobertura do Fundo Garantidor de Créditos (FGC). Se tivesse sido aprovada, essa regra daria fôlego aos negócios do Master. A PF afirma que o texto da emenda foi redigido pela equipe do banco e reproduzido de forma integral pelo parlamentar ao apresentá-lo no Senado.
Após a formalização da proposta, Vorcaro registrou numa troca de mensagens, capturada em um de seus celulares, que a emenda saiu exatamente como ele mandou. Outros interlocutores do banco ressaltaram que a medida "sextuplicaria" o negócio do Master e provocaria verdadeira "hecatombe" no mercado. Ciro Nogueira reconhece ter participado de festas e eventos financiados por Vorcaro, mas alega que tudo foi dentro da lei.
"Daniel é meu amigo, como sou de todos os grandes empresários do Brasil. Vão me encontrar em festas, jantares, solenidades, mas em nenhum tipo de negócio. Renuncio ao mandato se tiver alguma coisa", disse o senador em entrevista a VEJA.
No entanto, a PF informou que havia muito mais do que uma mera relação de amizade. O senador usufruía de um apartamento de luxo de propriedade de Vorcaro, que também pagava despesas pessoais, como viagens, contas de restaurante e voos em jatinhos. Vorcaro entregaria ao senador mesadas de 300 mil a 500 mil reais para tê-lo como despachante de seus interesses no Congresso.
Os investigadores falam em crimes como corrupção, lavagem de dinheiro e organização criminosa. "O parlamentar detém o controle e figura como principal beneficiário das condutas relacionadas à execução material de atos de lavagem de capitais sob investigação", registrou Mendonça. Por meio de nota de seus advogados, Nogueira repudiou "qualquer ilação de ilicitude sobre suas condutas, especialmente em sua atuação parlamentar".
Ele também manifestou sua intenção de contribuir com a Justiça para deixar clara sua inocência. Ciro Nogueira é apenas um dos importantes integrantes da extensa rede de contatos de Vorcaro, que reúne parlamentares, ex-ministros, dirigentes partidários e magistrados. O desafio da PF é descobrir quem manteve relações legais, mesmo que controversas do ponto de vista moral, e quem cometeu crimes.
O caso Master contribuiu para que o Supremo, por exemplo, afundasse em uma grave crise de credibilidade, devido a transações mal explicadas entre ministros e o ex-banqueiro. A ofensiva sobre o influente Ciro Nogueira é só o prenúncio do que vem pela frente. Com uma ascensão meteórica no sistema financeiro, Vorcaro foi preso pela primeira vez em novembro do ano passado, quando seu esquema fraudulento foi desbaratado, mas conseguiu a liberdade em seguida.
Em março, voltou a ser preso depois de a PF alertar o ministro André Mendonça de que o ex-banqueiro tinha uma milícia particular que ameaçava e coagia adversários e desafetos do chefe. O episódio ainda está envolto em dúvidas. Encarcerado no presídio da Papuda, o ex-banqueiro, por medo de uma longa condenação à cadeia, resolveu negociar um acordo de delação premiada.
A depender dos segredos revelados, o escândalo Master poderá abalar estruturas importantes de Legislativo, Executivo e Judiciário.