O glaucoma continua a ser a principal causa de cegueira irreversível no Brasil, afetando cerca de 350 mil brasileiros anualmente, que recebem tratamento com colírios fornecidos pelo Sistema Único de Saúde (SUS). Essa condição, que é progressiva e geralmente resulta do aumento da pressão intraocular, danifica o nervo óptico e compromete a visão. Embora não tenha cura, o glaucoma pode ser controlado com diagnóstico e acompanhamento adequados.
Recentemente, um estudo realizado por pesquisadores do Hospital Israelita Albert Einstein revelou que o número de cirurgias de glaucoma realizadas no SUS aumentou de 18,5 mil em 2009 para 45,2 mil em 2024, um crescimento de 144%. No entanto, esse aumento não é uniforme entre as regiões do Brasil. O Sudeste, por exemplo, apresentou um aumento de 115% nos exames, enquanto o Nordeste teve um crescimento de apenas 36%.
A desigualdade no acesso ao tratamento é um dos principais desafios enfrentados no controle do glaucoma. A oftalmologista Carolina Engelbrecht, uma das autoras do estudo, destacou que a cobertura da demanda nacional ainda apresenta desafios significativos. "Nosso estudo mostra que a distribuição regional dos procedimentos é desigual, com o Sudeste e o Norte apresentando os maiores volumes proporcionais de atendimento que outras regiões", afirmou.
Além disso, a persistência de cirurgias convencionais, como a trabeculectomia, é um indicativo de que o Brasil ainda enfrenta déficits tecnológicos no tratamento do glaucoma. Engelbrecht observa que, em países desenvolvidos, há uma tendência crescente para procedimentos minimamente invasivos, que apresentam menos riscos de complicações. Essa mudança é crucial, pois a adoção de novas tecnologias pode melhorar significativamente os resultados dos tratamentos e a qualidade de vida dos pacientes.
Os avanços no tratamento do glaucoma também incluem colírios desenvolvidos para causar menos irritação ocular e métodos a laser que permitem tratamentos menos invasivos, realizados em consultório. Apesar dessas inovações, a adesão ao tratamento continua a ser um desafio central para os profissionais de saúde. A falta de conscientização sobre a gravidade da doença e a importância do tratamento regular contribuem para que muitos pacientes não sigam as orientações médicas.
O aumento no número de exames de glaucoma, que saltou de 1,37 milhão em 2019 para 2,26 milhões em 2025, é um sinal positivo. No entanto, as disparidades regionais são alarmantes, com estados como Pernambuco realizando 7. 000 exames para cada 100 mil habitantes, enquanto o Distrito Federal realiza apenas 265.
Essa diferença acentua a necessidade de políticas públicas que garantam acesso equitativo aos serviços de saúde ocular em todo o país. O glaucoma é uma doença que muitas vezes não apresenta sintomas, o que leva os pacientes a não procurarem atendimento oftalmológico. O oftalmologista Diego Monteiro Verginassi ressalta que, em um país com desigualdades no acesso aos serviços médicos, muitos diagnósticos são feitos tardiamente.
A presidente do Conselho Brasileiro de Oftalmologia (CBO), Maria Auxiliadora Frazão, enfatiza que é necessário não apenas conscientizar sobre os riscos, mas também garantir acesso aos exames e tratamento adequado. Essa abordagem integrada é fundamental para reduzir a incidência de cegueira irreversível causada pelo glaucoma. Os fatores de risco para o glaucoma incluem idade avançada, histórico familiar da doença, pressão ocular alta, miopia elevada e uso prolongado de corticoides.
Um fator menos conhecido é a ascendência africana, que está associada a uma maior prevalência do glaucoma primário de ângulo aberto, que tende a se manifestar mais cedo e a progredir mais rapidamente. Essa informação é crucial para que os profissionais de saúde possam identificar grupos de risco e implementar estratégias de prevenção mais eficazes. Para prevenir o glaucoma, é recomendado que pessoas acima de 40 anos incluam a investigação para a doença em seus exames de rotina.
A avaliação da pressão ocular e do fundo de olho são essenciais para um diagnóstico precoce, aumentando as chances de preservação da visão. A conscientização e o acesso a cuidados oftalmológicos adequados são fundamentais para enfrentar essa condição que continua a ser uma ameaça à saúde ocular no Brasil.