Brasil tem avanços na resposta ao HIV, mas enfrenta aumento nos casos da infecção, aponta Unaids

Por Autor Redação TNRedação TN

Brasil tem avanços na resposta ao HIV, mas enfrenta aumento nos casos da infecção, aponta Unaids

O Brasil apresenta um cenário ambíguo em relação à resposta ao HIV, conforme apontado no recente relatório da Unaids (Programa Conjunto das Nações Unidas sobre HIV/Aids), divulgado durante uma conferência internacional de Aids no Rio de Janeiro. Embora o país tenha se destacado positivamente em várias frentes, ele também figura entre as 21 nações que registraram aumento nos casos de infecção pelo HIV, com uma alta superior a 20% entre 2010 e 2025. Nos últimos 30 anos, o Brasil conseguiu reduzir significativamente o número de novas infecções e mortes relacionadas à Aids, mas a fragilidade da resposta global é um ponto de preocupação.

A ajuda internacional destinada ao HIV caiu 18%, passando de US$ 8,8 bilhões em 2024 para US$ 7,3 bilhões em 2025. Essa diminuição no financiamento pode impactar diretamente os esforços de prevenção e tratamento no país. Os dados do relatório revelam que, enquanto países como Quênia, Ruanda e Zimbábue conseguiram reduzir em quase 80% o número de novas infecções desde 2010, o Brasil, assim como Paquistão e Filipinas, viu um aumento.

O médico sanitarista Draurio Barreira, diretor do departamento de HIV/Aids, Tuberculose, Hepatites Virais e Infecções Sexualmente Transmissíveis do Ministério da Saúde, atribui essa alta, em parte, à ampliação do diagnóstico. Ele destaca que a rede de testagem foi quintuplicada nos últimos anos, com a distribuição de autotestes a organizações não governamentais. "Nos últimos anos, tivemos um pequeno aumento, estatisticamente desprezível, na detecção de pessoas vivendo com HIV, mas uma diminuição de pessoas vivendo com Aids", afirmou Barreira.

Isso indica que a população mais exposta ao risco já recebeu, na maioria, o diagnóstico, o que pode não refletir um aumento real de novas infecções. Beatriz Grinsztejn, médica infectologista e atual presidente da IAS (International Aids Society), aponta que a alta das infecções está relacionada a barreiras estruturais que persistem, mesmo em um país que garante acesso universal a antirretrovirais. Ela menciona que 30% das pessoas no Brasil ainda recebem o diagnóstico tardiamente, com contagem de CD4 abaixo de 200, o que é preocupante, considerando que o país possui os insumos necessários para o tratamento.

As causas dessas barreiras incluem racismo, homofobia, transfobia, pobreza e insegurança alimentar. Grinsztejn também destaca que programas sociais, como o Bolsa Família, têm mostrado resultados positivos em relação à mortalidade e hospitalização por HIV, especialmente entre mulheres. Um dado positivo é que, pela primeira vez desde o início dos anos 1990, o número de mortes por Aids no Brasil deve ficar abaixo de 10 mil neste ano, uma queda significativa em relação aos mais de 11 mil óbitos anuais registrados anteriormente.

Além disso, o Brasil recebeu a certificação da Opas (Organização Pan-Americana da Saúde) em dezembro de 2025, reconhecendo que eliminou a transmissão vertical do HIV, tornando-se o primeiro país com mais de 100 milhões de habitantes a alcançar esse feito. Atualmente, cerca de 1 milhão de pessoas vivem com HIV no Brasil, e o país já cumpriu duas das três metas 95-95-95 da ONU, que visam aumentar o percentual de pessoas com HIV que conhecem seu status, as que estão em tratamento e as que atingiram supressão viral. O Brasil atingiu os indicadores de testagem e de supressão viral, mas ainda precisa avançar na cobertura de tratamento antirretroviral.

O acesso à profilaxia pré-exposição (PrEP) também foi ampliado, com o número de pessoas usando PrEP pelo menos uma vez no ano passando de 165 mil para 233 mil entre 2024 e 2025, um crescimento de 41%. Dados mais recentes indicam que cerca de 230 mil usuários de PrEP estão no país, superando a meta do Ministério da Saúde de três pessoas em PrEP para cada nova infecção. O relatório da Unaids também destaca disparidades significativas entre os estados brasileiros, e a redução dessas disparidades será essencial para garantir acesso equitativo à prevenção.

O Programa Brasil Saudável (Unir para Cuidar), lançado em 2024, é um compromisso do governo brasileiro para eliminar, até 2030, 14 doenças e infecções socialmente determinadas, incluindo o HIV. Esse programa alinha-se à Estratégia Global de Aids 2026-2031 e à Declaração Política sobre HIV/Aids de 2026, combinando intervenções de saúde com ações para erradicar a fome e expandir direitos humanos. O Brasil, desde 2025, também ampliou o orçamento público destinado ao HIV, com um aumento de até 10%.

Apesar dos avanços, o Unaids alerta que cerca de 22% das 41 milhões de pessoas vivendo com Aids ainda não estão em tratamento, e quase metade das crianças vivendo com HIV não teve acesso à terapia antirretroviral. A diretora-executiva do Unaids, Winnie Byanyima, enfatiza que a inovação só terá impacto na epidemia de Aids quando houver acesso amplo a tratamentos e prevenção a preços acessíveis. "Inovação sem acesso não é inovação, é injustiça", conclui.

Tags: HIV, Brasil, Aids, Unaids, Infecção, Saúde Fonte: jornaldebrasilia.com.br