Jorge Drexler homenageia Gonzaguinha com o álbum "Taracá"
O cantor e compositor uruguaio Jorge Drexler acaba de lançar seu mais novo trabalho, intitulado "Taracá", que traz uma rica exploração do candombe, um ritmo afro-uruguaio, ao reinterpretar a icônica canção "O que é o que é?" de Gonzaguinha. Em uma coletiva de imprensa realizada em Montevidéu, Drexler expressou sua intenção de fazer uma homenagem respeitosa ao samba, ao mesmo tempo em que o mistura ao candombe.
Este álbum não só marca o retorno de Drexler ao seu país natal após quase 30 anos na Espanha, como também destaca colaborações com músicos locais. Ele tem se apresentado no Brasil, reforçando sua forte conexão com a música brasileira, que tem influenciado sua trajetória artística.
Jorge Drexler, agora com 61 anos, compartilhou seus pensamentos durante uma ensolarada manhã em Montevidéu, onde conversou com jornalistas sobre seu 15º álbum, "Taracá". O disco, que será lançado oficialmente nesta sexta-feira, faz uso da rica rítmica do candombe, uma expressão cultural afro-uruguaia que, assim como o samba, tem raízes na herança dos escravizados.
Reconhecido mundialmente, Drexler foi o ganhador do Oscar de melhor canção original em 2005 com "Al otro lado del río", da trilha sonora do filme “Diários de motocicleta”, dirigido por Walter Salles. Para seu novo álbum, ele escolheu gravar "¿Qué será que es?", a versão em espanhol de "O que é o que é?", um samba de Gonzaguinha, cuja obra ele admira profundamente. Durante a coletiva, Drexler enfatizou a importância dessa canção, que ele considera uma reflexão filosófica profunda sobre a vida.
O cantor também expressou seu desejo de que os brasileiros não estranhassem sua interpretação, que foi realizada com músicos uruguaios durante uma roda de candombe. Ele revelou que sempre foi tocado pela música de Gonzaguinha, especialmente quando ouvia em rodas de samba no Brasil.
"Esta música sempre me chamava a atenção nas rodas de samba, quando tocava no Brasil. Era um momento de elevação espiritual. Tem uma série de questões ontológicas e filosóficas sobre o ser e sobre a vida, que ampliam o escopo do gênero musical. É o tipo de reflexão que se encontra mais em livros do que em canções", disse Drexler.
O videoclipe de "¿Qué será que es?" foi lançado na quarta-feira, trazendo imagens nostálgicas da infância de Drexler, gravadas em Super 8. Ele menciona que sua intenção é apresentada como uma homenagem ao Brasil, misturando a sonoridade do candombe, mas com uma adaptação pessoal.
“Taracá” não é apenas um álbum que celebra as raízes culturais uruguaias, mas também representa uma busca de reconexão. Drexler revela que a fase de sua vida em que retorna ao Uruguai, especialmente após os 60 anos, é marcante, pois coincide com o ano da morte de seu pai, o otorrinolaringologista e escritor Günther Drexler Schlein, uma perda que o fez refletir sobre sua própria identidade e legado musical.
Ele contou que sua estadia na Espanha foi motivada por causas familiares, mas agora, ao perceber que seus filhos mais novos estão se tornando adolescentes, ele pode passar mais tempo em seu país natal. Essa reconexão o levou a se envolver novamente com as rodas de candombe, um fenômeno que ele descreve como impactante na sociedade uruguaia.
"Quem vai assistir a uma roda de candombe, que deriva das rodas de samba, não está apenas vendo um palco com músicos, está vendo a sociedade em uma roda... Vou para lá como quem vai para a terapia", disse o cantor.
Drexler acredita que a música uruguaia está em uma fase particularmente interessante, com novas vozes emergentes que dialogam entre diferentes estilos e influências. Ele menciona alguns artistas e colaboradores que contribuíram para seu novo álbum, incluindo Facundo Balta e Tadu Vázquez, que estão moldando a nova cena musical em Montevidéu e Buenos Aires.
Além disso, ele destaca o trabalho com a orquestra jovem Susi — Selección Uruguaya Sinfónica e outros músicos renomados, o que resultou em faixas que conseguem dialogar entre tradição e modernidade, como “Toco madera” e “El tambor chico”, homenageando os tambores do candombe.
O álbum também apresenta músicas que diversificam o gênero, como “Te llevo tatuada”, onde Drexler tenta explorar novas sonoridades. Drexler fará shows no Brasil em maio, com apresentações programadas para os dias 23 em São Paulo e nos dias 29 e 30 em Porto Alegre, trazendo ao público a riqueza de sua nova obra musical.
"A partir do carnaval no Rio, a música do Brasil se tornou parte do meu imaginário, e mesmo sem aulas de português, aprendi cantando João Gilberto", finaliza.
Esta nova fase de Jorge Drexler promete trazer novas perspectivas e emoções, tanto para os fãs de sua música quanto para aqueles que desejam descobrir a conexão profunda entre as culturas uruguaia e brasileira.