Pacotes de Inteligência Artificial e a Disputa Global
O Brasil se posiciona como um dos protagonistas nas negociações envolvendo pacotes de inteligência artificial (IA) oferecidos por potências como Estados Unidos e China. Com uma matriz energética limpa e um vasto volume de dados disponíveis, o país atrai bilhões em investimentos de gigantes da tecnologia, mas enfrenta um crescente risco de dependência normativa e tecnológica.
Recentemente, o governo brasileiro se viu imerso em um cenário de disputa entre as duas potências, que buscam ampliar sua influência no Brasil. Os EUA intensificaram essa competição ao assinar, em julho de 2025, uma ordem que permitiu a exportação de “pacotes completos” de IA, colocando o Brasil na lista de destinos prioritários, ao lado do Egito e da Indonésia.
Essa ação não é um caso isolado, mas parte de uma estratégia bem elaborada. O Brasil, uma das maiores economias da América Latina, negocia simultaneamente com chineses e americanos, o que levanta preocupações sobre a autonomia do país em termos de infraestrutura digital.
A Influência Americana e a Estrutura Normativa
Os sistemas de inteligência artificial que estão sendo empregados no Brasil têm suas raízes em padrões americanos. A regulação, embora siga referências internacionais, como o modelo europeu, está sendo implementada por corporações dos EUA, o que aumenta a dependência do Brasil em relação ao exterior.
Em um cenário comparativo, é interessante observar o que ocorreu com o Japão em suas relações com os Estados Unidos. Durante a visita de Donald Trump a Tóquio, foi assinado um “Technology Prosperity Deal”, um acordo que buscava alinhar políticas de IA sob um mesmo céu normativo. Esse modelo permitiu ao Japão integrar-se de forma mais profunda à órbita tecnológica americana, não apenas em questões comerciais, mas também na governança e nas normas tecnológicas.
Desafios na Autonomia Brasileira
O Brasil enfrenta um dilema. Ao mesmo tempo que se apresenta como um mercado atrativo para investimentos em tecnologia, o país corre o risco de perder autonomia sobre decisões cruciais que serão tomadas por sistemas de IA. Isso já se reflete na utilização de modelos de linguagem e de decisão que dependem de dados e padrões desenvolvidos majoritariamente por empresas americanas, criando um viés que pode não ser intencional, mas é, sem dúvida, estruturado.
O debate sobre a regulação da IA no Brasil tem se apoiado no AI Act europeu. O projeto em discussão, envolvendo a criação de um sistema de governança de IA, é uma tentativa do Brasil de reafirmar sua soberania. Contudo, essa autonomia é questionável, uma vez que a implementação dessa regulação está nas mãos de corporações multinacionais que estão, de fato, no comando da infraestrutura sobre a qual a legislação incide.
O que está em Jogo?
A boa notícia é que o Brasil possui vantagens reais no cenário atual. É o maior mercado de dados da América Latina e possui uma das matrizes energéticas mais limpas do planeta, fatores que são cruciais para as operações de data centers. Além disso, o Brasil já se destacou mundialmente com a implementação do PIX, um sistema de pagamentos digitais inovador e eficaz.
Portanto, a disputa por parcerias em IA entre EUA e China não é fruto da generosidade, mas da necessidade. O Brasil tem o que ambos os lados desejam: um enorme potencial de mercado, energia em abundância e uma população crescente de usuários conectados.
Reflexão Necessária
A grande questão que deve ser debatida publicamente no Brasil é sobre o que realmente está sendo conquistado ao aceitar os pacotes completos de IA americanos. Não se trata apenas de comércio e investimentos, mas sim da soberania e da autonomia sobre decisões tecnológicas que moldarão o futuro do país, em um contexto onde cada vez mais, sistemas que não estão sob o controle brasileiro poderão ditar diretrizes e normas que afetarão toda a sociedade.