A desinformação é um fenômeno crescente no Brasil, especialmente em áreas periféricas e entre populações vulneráveis. Um estudo recente, intitulado "Dos territórios indígenas às periferias: retratos da desinformação e do consumo de notícias no Brasil", revelou que a falta de acesso à internet e a dificuldade de identificação de informações confiáveis são fatores cruciais que contribuem para esse problema. A pesquisa foi realizada pela Coalizão de Mídias Periféricas, Faveladas, Quilombolas e Indígenas e entrevistou cerca de 1.
500 pessoas em cidades como Santarém (PA), Recife (PE) e São Paulo (SP). A pesquisa, divulgada em 13 de maio de 2026, aponta que a conexão de baixa qualidade ou a ausência total de acesso à internet ainda são barreiras significativas para que as pessoas se mantenham informadas. Aproximadamente um em cada quatro entrevistados mencionou a dificuldade de se conectar como um dos principais obstáculos para acessar informações.
Além disso, 17% dos participantes relataram que têm dificuldade em distinguir informações falsas, enquanto 16% associaram a falta de tempo à dificuldade de selecionar conteúdos confiáveis. A coordenadora do estudo, Thais Siqueira, enfatizou que o desafio vai além de melhorar formatos ou ampliar o alcance das informações. "É necessário mudar a lógica do jornalismo, passando de um modelo que apenas 'fala' para um que 'escuta' e constrói junto com a comunidade", afirmou.
O estudo também trouxe 16 recomendações para fortalecer o jornalismo local e combater a desinformação, além de democratizar a comunicação. Os dados revelaram que a maioria dos entrevistados busca notícias para entender o que acontece em seu próprio bairro (17%), seguido pela necessidade de tomar decisões (14%) e compartilhar informações (12%). Os aplicativos de mensagens e redes sociais, como WhatsApp e Instagram, são as plataformas mais utilizadas para acessar notícias.
No entanto, a pesquisa destacou diferenças regionais: em Recife e São Paulo, há uma maior diversificação nas plataformas, enquanto em Santarém, o WhatsApp, a TV aberta e o rádio predominam. O estudo também revelou que, apesar da confiança nas mídias tradicionais, o acesso a elas não é suficiente para combater a desinformação. Conteúdos produzidos localmente, que respeitam saberes e formas de expressão da comunidade, tendem a ter maior adesão.
"A confiança passa por relações, experiências e referências locais, e o jornalismo precisa dialogar com isso, em vez de ignorar", sintetizou Thais Siqueira. Além disso, a pesquisa destacou que a produção de informações em formatos acessíveis, como áudios e vídeos curtos, pode facilitar o acesso para aqueles que não têm pacotes de dados de internet. O levantamento foi realizado com a ajuda de pesquisadores, jornalistas e comunicadores locais, incluindo artistas de rua e jovens mães, que aplicaram questionários nas comunidades.
Essa abordagem colaborativa é fundamental para entender as necessidades específicas de cada território e para desenvolver soluções que realmente atendam à população. A Coalizão de Mídias é composta por iniciativas de cinco estados brasileiros, incluindo Periferia em Movimento (SP), Desenrola e Não Me Enrola (SP), A Terceira Margem da Rua (SP), Frente de Mobilização da Maré (RJ), Fala Roça (RJ), Rede Tumulto (PE), Mojubá Mídias e Conexões (BA) e Coletivo Jovem Tapajônico (PA). O estudo é um passo importante para entender as dinâmicas de consumo de notícias e a luta contra a desinformação em um Brasil cada vez mais conectado, mas ainda desigual.
A pesquisa não apenas ilumina os desafios enfrentados, mas também aponta caminhos para um jornalismo mais inclusivo e eficaz, que possa realmente servir à população e contribuir para a construção de uma sociedade mais informada e crítica.