A Baixada Santista, região do litoral paulista, tem revivido um cenário de violência que remete a maio de 2006, quando o Primeiro Comando da Capital (PCC) realizou uma série de ataques contra as forças de segurança. Vinte anos após aqueles eventos, a facção criminosa parece ter mudado sua estratégia, mas a violência persiste, especialmente em cidades como Santos, Cubatão e Guarujá. De acordo com informações recentes, o PCC mantém uma lógica empresarial que prioriza a obtenção de lucros com o tráfico de drogas, evitando conflitos diretos com a polícia.
No entanto, essa regra não se aplica à Baixada Santista, onde a facção demonstra um controle territorial mais violento. Moradores relatam que em diversas comunidades, a presença da polícia é quase inexistente, e os criminosos frequentemente ostentam armas de fogo nas ruas. A situação é alarmante, com relatos de que a polícia militar (PM) só realiza operações em comboios, e em muitos casos, é recebida com tiros e barricadas.
A falta de policiamento preventivo em várias áreas tem contribuído para um aumento significativo no número de mortes, tanto de civis quanto de policiais. Dados da Secretaria da Segurança Pública indicam que, no primeiro trimestre de 2026, 28 pessoas foram mortas em intervenções policiais na Baixada, um número que já representa mais da metade do total de mortes registradas em 2025. Além disso, a Baixada Santista tem sido marcada por assassinatos de policiais.
Nos últimos 20 anos, pelo menos 44 agentes foram mortos na região, sendo 33 deles da PM. O aumento da violência na área tem gerado críticas à gestão do governador Tarcísio de Freitas, que enfrenta desafios para controlar a situação. A escalada da violência começou em julho de 2023, com o assassinato de um soldado da Rota em Guarujá, seguido por operações da PM que resultaram na morte de 84 pessoas em supostos confrontos.
Entidades de direitos humanos levantaram preocupações sobre possíveis assassinatos extrajudiciais, com relatos de que algumas vítimas foram mortas com tiros pelas costas. O controle territorial do PCC na Baixada é facilitado pela ocupação urbana desordenada e pela presença de áreas de mangue, que dificultam o acesso da polícia. O coronel Fabio Possato, comandante da PM na região, reconhece que existem áreas onde o patrulhamento é mais complicado devido à presença de barricadas e à resistência dos criminosos.
A situação é ainda mais complexa devido à exploração das comunidades pobres pelo PCC, que as utiliza como entrepostos para o tráfico de drogas, especialmente pelo porto de Santos. A Polícia Federal tem enfrentado dificuldades para realizar apreensões, que caíram 83,6% nos últimos cinco anos, indicando uma mudança na dinâmica do tráfico. Para tentar combater essa realidade, a PM adquiriu um "caveirão" aquático, um barco blindado, para atuar nas operações no porto.
Contudo, a ostentação de armamentos pelos criminosos continua a ser um símbolo de poder e controle sobre o território. A análise da situação revela que apenas ações policiais não são suficientes para retomar o controle das áreas dominadas pelo crime. Especialistas sugerem que é necessária uma presença mais efetiva do Estado, embora reconheçam que isso pode ter um alto custo humano e político.
A falta de integração entre diferentes esferas do poder público é vista como um dos principais obstáculos para enfrentar o crime organizado na região. Em meio a esse cenário, a população da Baixada Santista vive sob constante tensão, com a violência armada afetando a rotina de seus 1,8 milhão de habitantes. A comparação entre a situação atual e os eventos de maio de 2006 é complexa, e as autoridades afirmam que, embora a violência persista, não há uma ação orquestrada como a que ocorreu há duas décadas.
O desafio para a segurança pública na Baixada Santista continua a ser um tema de debate e preocupação entre os moradores e as autoridades.