"Não temos dinheiro, mas temos talento", diz diretor argentino O cinema argentino enfrenta uma das crises mais severas de sua história, marcada pela drástica redução de investimentos públicos. A situação foi analisada por Hernán Findling, presidente da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas da Argentina, durante a cerimônia de entrega dos Prêmios Platino, realizada em Cancún, no México. Findling destacou que a indústria audiovisual, especialmente o "cinema de autor", que inclui filmes críticos e documentários, foi severamente afetada, sendo empurrada para plataformas comerciais.
O desmonte do sistema de fomento ao audiovisual, que há anos era sustentado pelo Instituto Nacional de Cinema e Artes Audiovisuais (INCAA), se intensificou com a chegada do governo ultradireitista de Javier Milei. "O INCAA cortou totalmente todo o tipo de subsídio ou ajuda", afirmou Findling, que exemplificou a situação ao mencionar que, em vez de produzir entre 70 e 100 filmes por ano, a Argentina agora se limita a apenas 10 ou 12 produções. Findling enfatizou que o desmonte do sistema de fomento "matou" o cinema de autor, cultural e crítico, que é uma marca da identidade argentina e que não possui apelo comercial.
Ele observou que os filmes atualmente produzidos, embora não sejam ruins, são predominantemente conteúdos comerciais voltados para plataformas de streaming como Netflix, Amazon e Disney. O presidente da academia também reconheceu a importância das plataformas de streaming em um momento de desinvestimento, onde realizadores têm retornado a filmar como há 30 anos, utilizando amigos e crowdfunding como alternativas. No entanto, Findling alertou que esse modelo não é sustentável a longo prazo, pois os direitos autorais das produções acabam nas mãos das empresas, circulando menos na economia local.
"Essa não é uma crítica negativa, as plataformas são um negócio e não uma política pública. O que chamamos de indústria hoje é graças a elas, que tocam grandes produções, criam empregos e mantêm técnicos trabalhando. Isso é ótimo, mas não pode ser a única alternativa para o cinema", analisou Findling.
O professor Santiago Marino, da Universidade de Santo André, também comentou sobre o controle que as plataformas exercem sobre o audiovisual, decidindo quais histórias podem ser contadas. Ele alertou que essa situação pode limitar a diversidade de narrativas no cinema argentino. A crise do setor audiovisual argentino é vista por Findling como parte de uma disputa ideológica promovida pelo governo.
"O governo está em uma batalha contra aqueles que considera que pensam diferente dele", disse. Ele ressaltou que existe uma percepção de que quem trabalha com cultura se opõe ao governo, o que dificulta a compreensão de que o cinema é também uma questão de trabalho e economia. De acordo com a associação, para cada dólar investido na indústria audiovisual, o retorno é de dois a três dólares, o que caracteriza o investimento como uma despesa.
Apesar da crise, o cinema argentino continua a receber reconhecimento internacional. Na última edição dos Prêmios Platino, a série de TV "O Eternauta" conquistou vários prêmios, incluindo melhor criador e melhor ator para Ricardo Darín. Com o fim do apoio estatal, os realizadores argentinos têm buscado coproduções internacionais, especialmente com países da América Latina.
Findling acredita que essa é uma alternativa viável para o setor, embora a Argentina enfrente tensões com outros países da região. A Academia de Cinema da Argentina tem se esforçado para negociar espaços em festivais e embaixadas, buscando exibir filmes e projetos fora do país. "Agora não temos mais dinheiro para dar, o que temos é talento", garantiu Findling.
Ele explicou que nas coproduções, a Argentina contribui com técnicos, atores e música, enquanto o parceiro financeiro cobre os demais custos. Apesar do cenário desafiador, Findling acredita que, assim como ocorreu no Brasil durante o governo de Jair Bolsonaro, a situação é temporária e que o cinema argentino irá se recuperar, pois é parte da identidade do país.