Derrota de Milei em Buenos Aires testa plano econômico inesperado

Por Autor Redação TNRedação TN

Javier Milei gesticula na cerimônia do Dia da Bandeira, após derrota na província de Buenos Aires. Legenda da imagem. Reprodução: O Globo

A leitura inicial do resultado da eleição regional na Província de Buenos Aires, a maior porção do território e do eleitorado do país, mostra que a derrota de Milei projeta sombras sobre as conquistas do seu plano de ajuste econômico e acende a vela das atenções para o pleito nacional de 26 de outubro. Sem uma base forte no Congresso, a aprovação de reformas que permitam ao Estado encaixar-se no Orçamento pode se tornar mais difícil, reacendendo dúvidas sobre a continuidade do pacote de medidas que ele vende como essência de seu projeto econômico.

Contexto político e impacto no Congresso

Para Milei, o resultado das urnas na província em que residem as maiores estruturas administrativas do país representa o maior teste desde a implementação de seu programa. A derrota evidencia que, embora tenha obtido avanços em alguns indicadores macroeconômicos e legais para dificultar greves e demissões, manter o ímpeto de reformas depende do apoio no Congresso. A eleição de outubro, com renovação de metade da Câmara e um terço do Senado, é apontada como decisiva para consolidar ou constranger a agenda de Milei.

Especialistas observam que, com o resultado adverso, o governo pode enfrentar resistência de forças que disputam espaço no legislativo, o que torna ainda mais crítico o pleito de outubro. A leitura é de que Milei precisa ampliar a base de apoios ou, ao menos, evitar nova ampliação da oposição, para que o ajuste continue a ter continuidade e para que o governo possa continuar defendendo seu programa de desregulamentação e cortes de despesas.

Resultados regionais e o peso econômico

Entre os números apresentados, o ajuste fiscal implementado no período recente é descrito como brutal, com cortes de despesas estimados em mais de 30%. Observadores destacam que, paralelamente, a inflação anualizada caiu de mais de 200% para cerca de 36%, com projeções para encerrar 2025 em 28%, de acordo com as análises de analistas. Além disso, a economia voltou a crescer, com estimativas sugerindo crescimento do PIB neste ano acima de 5%. Esses desdobramentos são apresentados como parte das mudanças profundas promovidas pela administração de Milei, que também alterou leis para dificultar greves, reduzir entraves à demissão de funcionários e desregulamentar vários setores.

No setor imobiliário, a retirada de limites para aumentos de aluguel resultou em mudanças de mercado: a oferta de imóveis aumentou em torno de 195% e os aluguéis recuaram aproximadamente 10%. Esses números ilustram a intensidade do choque regulatório e suas consequências para arrendatários, proprietários e o balanço do setor.

Assistência externa e contestações de corrupção

Foi vital, para o êxito da política econômica, a abertura, em abril, de uma linha de socorro de US$ 20 bilhões junto ao Fundo Monetário Internacional. O apoio internacional também contou com a visita do secretário do Tesouro dos EUA, Scott Bessent, enviado por Donald Trump para reforçar o apoio ao governo de Milei. Contudo, tais apoios não impediram o surgimento de escândalos que passaram a marcar a gestão.

Em 14 de fevereiro, Milei foi às redes sociais para promover uma criptomoeda, e a cotação subiu rapidamente, produzindo lucros para um pequeno grupo de investidores. Há suspeitas de envolvimento da irmã do presidente, Karina Milei, que também atua como secretária-geral da Presidência. Em momentos recentes, áudios de Diego Spagnuolo, ex-diretor da Agencia Nacional de Deficiência (Andis), revelaram que compras de medicamentos e equipamentos pagavam propina, estimada em 8%, sendo 3% destinados a Karina. O conjunto de informações alimenta uma narrativa de dificuldades para o governo, que precisa administrar as tensões entre resultados econômicos positivos e as dúvidas sobre ética na gestão pública.

“Milei perdeu oportunidade histórica de deixar para trás o peronismo”, afirma o economista Fabio Giambiagi, pesquisador associado do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (Ibre/FGV).

O economista reconhece que o risco é que, em vez de consolidar reformas no funcionamento do Estado, o governo possa ver o Peronismo conquistando espaço para promover retrocessos nas conquistas já obtidas. Essa avaliação eleva a importância das eleições de outubro, que podem redefinir o alinhamento político e econômico do país, influenciando também o cenário regional e, segundo muitos analistas, não é do interesse do Brasil nem do mundo uma Argentina novamente em convulsão.

Perspectivas para outubro e implicações regionais

O pleito nacional, marcado para o final de outubro, aparece como ponto de inflexão para a continuidade de reformas e para o equilíbrio entre disciplina fiscal e demandas sociais. A direção do governo dependerá da capacidade de ampliar o apoio parlamentar e de responder às críticas de corrupção que ganharam contorno com as informações veiculadas. O resultado da votação em Buenos Aires, aliado ao contexto de avanços macroeconômicos, sinaliza que outubro pode abrir caminho para a consolidação de reformas ou, ao contrário, impor limites mais rígidos à agenda de Milei.

Não interessa ao Brasil nem ao mundo uma Argentina novamente em convulsão. A leitura de analistas e economistas é de que o país precisa de estabilidade política para que as mudanças na política econômica tenham efeito duradouro, criando condições para que o país possa manter o crescimento, a inflação sob controle e a confiança dos investidores. O futuro, em resumo, depende de uma vitória estável que permita avançar com reformas e manter o país em uma trajetória de retomada econômica, sem descurar das questões institucionais que afetam a governabilidade.

Tags: Argentina, Milei, EleiçõesArgentina, Economia Argentina, Corrupção Fonte: oglobo.globo.com