Huelga de transporte afeta Caracas e revela tensões sociais
Na manhã de segunda-feira, Caracas amanheceu sem transporte público, em função de uma greve de motoristas de ônibus que impactou significativamente a atividade econômica e laboral na capital venezuelana. A paralização fez com que muitos trabalhadores chegassem atrasados aos seus empregos ou não conseguissem se deslocar. As principais rotas de ônibus, que atendem as avenidas e bairros da cidade, interromperam suas operações. Enquanto isso, nas estações do Metro de Caracas, que não atendeu ao apelo da greve, e no serviço de trens para os Vales do Tuy, ocorreram aglomerações caóticas de pessoas em busca de alternativas de transporte.
O que torna esta greve notável é que ela é a primeira de seu tipo a acontecer em vários anos no país. Nos últimos meses, motoristas insatisfeitos, assim como outros membros da sociedade civil, realizaram protestos discretos e medidas reivindicatórias escalonadas, mas evitaram ações de maior envergadura devido ao temor de represálias por parte da polícia política.
Durante os recentes períodos de "furia bolivariana" — um estado de alerta decretado nas forças armadas do país em resposta a ameaças à estabilidade do governo —, as manifestações por melhores salários que ocorriam no setor público foram reprimidas com intimidações. Isso se tornou um fato constante entre líderes civis, especialmente após as eleições presidenciais não reconhecidas de julho de 2024.
Recentemente, manifestações de estudantes e grupos sindicais conseguiram expressar suas demandas sociais, com uma presença significativa na Assembleia Nacional no dia 12 de março, também pela primeira vez em vários anos. Esta greve de transporte, que se anuncia como "indefinida", é outra expressão da abertura política ensaiada pela presidenta interina, Delcy Rodríguez, após os eventos militares de 3 de janeiro.
Desta vez, as autoridades chavistas não falaram sobre conspirações ou planos para desestabilizar o governo. A mídia oficial tratou a greve com discrição e destacou a normalidade nas ruas da capital. No entanto, a experiência de muitos cidadãos foi diferente. "Tive que andar até a estação do metro, aquilo foi horrível", afirmou Dalia Ochoa, funcionária doméstica que vive em Casalta, uma região montanhosa afastada do centro. "O metro estava intransitável, cheio de gente e atrasado. Quase desmaiei. Não sei como vou voltar para casa. Esses motoristas querem dobrar o preço da passagem, mas todos nós continuamos recebendo salário mínimo", completa.
No início da manhã, áreas centrais de Caracas, como Chacaíto e a Praça Venezuela, estavam inusitadamente desertas. Cidades próximas, como Guarenas e os Vales do Tuy, também sofreram com os efeitos da paralização. La Guaira, o porto marítimo que fornece acesso à Caracas, também foi afetado. A Guarda Nacional e a Polícia Nacional Bolivariana implementaram planos de contingência para ajudar trabalhadores a chegarem aos seus locais de trabalho, sem relatos de incidentes graves.
Ligia Guevara, que trabalha na limpeza de um escritório e mora em um município periférico, disse: "Saí muito cedo e tive que caminhar bastante. Ontem, ouvi que haveria uma paralisação de transporte, mas não levei a sério. Acabei pegando um táxi, caríssimo e dividido com outras pessoas. Primeiro têm que nos dar um aumento, depois o preço da passagem, não ao contrário. E que não seja abusivo", argumentou.
Nelson Vivas, representante das cooperativas de transporte que servem a Grande Caracas, pediu ao governo que devolvesse os ônibus apreendidos pela polícia por cobrarem um aumento na tarifa urbana de forma unilateral. Ele afirmou que a paralização do dia 16 de março ocorreu devido à falta de resposta do ministro de Transporte às suas demandas. O custo atual da passagem de ônibus em Caracas é de 60 bolívares (poucos centavos de dólar), e os motoristas desejam elevá-la para 120 bolívares. O aumento já foi aprovado, mas o governo enfrenta resistência para implementá-lo, devido à ausência de recursos para um aumento salarial simultâneo.
"Cheguei atrasado ao trabalho, acho que a greve afetou toda a cidade", comentou Ramón Berríos, funcionário em uma frutaria na Sabana Grande. "Enquanto os salários não subirem, ninguém vai conseguir arcar com qualquer aumento. Para que os motoristas estão fazendo isso? Além disso, já receberam autorizações para vários aumentos no valor do transporte".
Vivas, por sua vez, enviou um apelo pessoal ao influente Deusdado Cabello, número dois do regime, para que libere os ônibus apreendidos. "Faz dois anos que temos nossas unidades retidas. As pessoas que as possuem compraram-nas com muito esforço e hoje não conseguem sustentar suas famílias", clamou.