Mais de 33 mil detidos em El Salvador não eram pandilheiros

Por Autor Redação TNRedação TN

[Detidos sob o governo Bukele: 33 mil não aparecem como pandilleros nos registros policiais]. Reprodução: Elpais

Mais de 33 mil detidos em El Salvador não eram pandilheiros

Documentos internos de inteligência revelam que 36% das pessoas capturadas durante o regime de exceção em El Salvador não estavam listadas como criminosas antes da implementação desta medida.

O governo de Nayib Bukele renovou seu polêmico regime de exceção em diversas ocasiões, prometendo não parar até capturar o último pandilheiro. Entretanto, dados oficiais apontam uma diferença significativa: enquanto relatórios de inteligência identificavam 58.270 pandilheiros e colaboradores em liberdade antes da medida, as autoridades detiveram até o dia 25 de março um total de 91.628 pessoas. Isso significa que mais de 33.000 detidos (36%) não figuravam nos registros policiais previamente como pandilheiros.

Várias organigações de direitos humanos têm denunciado cerca de 7.000 capturas arbitrárias nos últimos quatro anos, mas esta é a primeira vez que essa discrepância é documentada através de um cruzamento de dados oficiais. O levantamento e os relatórios internos de inteligência policial, obtidos através de uma filtragem de e-mails da Polícia Nacional Civil (PNC) no final de 2022, confirmam a veracidade das informações.

O 9 de abril de 2022, apenas doze dias após a implementação do regime, o presidente Bukele admitiu que o número de inocentes capturados poderia ser de até 1%, afirmando que 85 pessoas seriam libertadas em breve, embora não tenha especificado a fonte desse dado. De acordo com os documentos de inteligência, esse “margem de erro” pode chegar a 36,4% ou até mais.

“Esse novo dado reforça uma dúvida: que tipo de inteligência foi usada para deter as pessoas durante o regime de exceção? As evidências de nossas investigações indicam que muitas detenções foram arbitrárias. Temos casos onde os policiais fabricaram evidências, usaram denúncias anônimas sem verificação e tatuagens que não têm relação com as MS-13. Ou seja, buscaram desculpas para capturar pessoas”, afirma Juan Pappier, subdiretor de Direitos Humanos para as Américas da Human Rights Watch.

Se as informações sobre as capturas que o governo publica periodicamente forem precisas, o objetivo de capturar todos os pandilheiros poderia ter sido alcançado em finais de 2022. Apenas oito meses após o início do regime, a Secretaria de Imprensa da Presidência publicou um comunicado indicando que o governo havia capturado mais de 58.000 pandilheiros e reportado 146 dias sem homicídios. Contudo, as detenções continuaram.

Entre os casos documentados, está o de Santos Navarro, que em fevereiro de 2022, um mês antes do início do regime, não estava listado na base de dados da polícia. No entanto, em julho de 2023, policiais invadiram seu local de trabalho e o prenderam sob a acusação de ser colaborador da MS-13, apesar de sua família alegar que a captura se baseou em denúncias anônimas.

A opacidade da informação se solidificou como um dos pilares do autoritarismo em El Salvador sob o governo de Bukele, embora transparência e combate à corrupção tenham sido promessas centrais em sua campanha de 2019. “Toda informação está sob reserva por sete anos. O único lugar onde aparecem alguns dados são nos decretos legislativos para a prorrogação do regime de exceção. Mesmo esses números são questionáveis: se comparados mês a mês, mostram variações inexplicáveis; às vezes diminuem, outras aumentam. Não parece haver uma gestão séria da informação”, afirma René Valiente, diretor de investigações de Cristosal, a principal organização de direitos humanos no país.

Os documentos revelam que no final de 2021, os principais grupos criminosos do país estavam enfraquecidos, com uma queda notável nos homicídios, o que levou a uma maior quantidade de capturas. Documentos indicam que, mesmo considerando o número total de pandilheiros registrados, existem mais detidos que não estão associados às pandilhas. Para maio de 2025, o Ministro da Segurança Gustavo Villatoro declarou que ainda faltavam cerca de 4.500 pandilheiros, alegando que o estado de exceção continuará enquanto houver indivíduos a serem capturados.

As dinâmicas das detenções arbitrárias têm sido denunciadas por Cristosal desde o início do regime, com um banco de dados levantando 3.808 queixas. Do total, 3.655 são por prisões consideradas arbitrárias, ou seja, em 96% dos casos, as famílias afirmam que os detidos não pertencem a gangs ou não cometeram os delitos imputados. “Não devemos confundir uma declaração de detenção com um pedido por liberações discriminadas. O que se exige é uma revisão séria dos casos”, enfatiza Valiente.

A situação das detenções, a imprecisão das informações e o impacto no povo salvadorenho continuam sendo temas de importante debate internacional, à medida que a população questiona a eficácia e os métodos do governo Bukele neste combate às pandilhas.

Tags: Direitos Humanos em El Salvador, Regime de Exceção, Nayib Bukele, Arrestos Arbitrários, Pandilhas Fonte: elpais.com