O panorama da liberdade de imprensa na Nicarágua
Recentemente, o coletivo Las Exiliadas Nicas e a organização Repórteres Sem Fronteiras (RSF) Espanha divulgaram um relatório alarmante sobre a situação da imprensa na Nicarágua, um país que, sob a ditadura de Daniel Ortega e sua esposa, Rosario Murillo, tem enfrentado severas restrições à liberdade de expressão e de informação.
A revolta de 2018 e sua repercussão
As manifestações sociais de 2018 foram um marco histórico para a Nicarágua, onde a repressão do governo resultou em mais de 300 mortes, incluindo menores de idade. Desde então, 61 meios de comunicação foram fechados ou confiscados e 309 jornalistas foram forçados ao exílio, conforme dados da Fundação pela Liberdade de Expressão e Democracia (FLED). Com aproximadamente 65% do país em um "deserto informativo", a esperança de um jornalismo independente reside em sua atuação na diáspora.
Desmantelamento da sociedade civil
A Human Rights Watch (HRW) também destacou em seu relatório anual o desmantelamento da sociedade civil na Nicarágua, com o fechamento de mais de 5.500 organizações, incluindo grupos de direitos humanos e universidades. O número de jornalistas que fugiram do país atinge 293, o segundo maior da região.
O papel dos jornalistas no exílio
O relatório indica que, apesar das dificuldades, pelo menos 26 meios de comunicação independentes operam fora da Nicarágua, principalmente em Costa Rica, Estados Unidos e Espanha. No entanto, os jornalistas que atuam no exterior fazem isso sob condições de extrema precariedade e enfrentando constantes ameaças do regime de Ortega e Murillo.
A "tríade represiva" do regime
O relatório de Las Exiliadas Nicas detalha uma estratégia de controle chamada “tríade represiva”, que inclui o uso de ciberdelitos, agentes externos e a lei de soberania para perseguir sistematicamente jornalistas nicaraguenses, tanto em solo nicaraguense quanto no exterior. Segundo Carlos Fernando Chamorro, um dos principais jornalistas do país, o trabalho de jornalistas no exílio é crucial para preservar a memória histórica e a defesa da liberdade de expressão.
A violência enfrentada por mulheres jornalistas
O impacto da repressão é especialmente severo para as mulheres jornalistas, que documentaram 730 violações de direitos, com 80% das vítimas relatando violência de natureza sexual. Maryorit Guevara, jornalista nicaraguense exilada, teve experiências traumáticas ao receber ameaças de morte e ataques à sua integridade e à de sua família.
Solidariedade internacional e perspectivas de mudança
Chamorro e Guevara enfatizam a importância do apoio internacional. "A Nicarágua é um fracasso da comunidade internacional. Precisamos de uma mobilização que não dependa da política de força dos Estados Unidos", afirma Chamorro. A necessidade de uma pressão política efetiva por parte de governos democráticos da América Latina e Europa é vista como essencial para a restauração da democracia no país.
Uma ditadura insustentável
Embora a situação pareça estável para o governo de Ortega, especialistas alertam que a ditadura é insustentável a longo prazo. O futuro da Nicarágua e a possível transição democrática dependem das forças internas e externas. O sentimento no país é de que os cidadãos nicaraguenses devem tomar a iniciativa para superar a crise e ao mesmo tempo garantir que a história de resistência e luta pela liberdade de expressão não seja esquecida.