Polêmica em Madrid: Almeida rejeita tapia de La Almudena como lugar de memória
No mês passado, o Governo central espanhol reconheceu a importância histórica da tapia do cemitério de La Almudena, em Madrid, onde milhares de opositores ao regime franquista foram executados. Essa decisão, no entanto, foi contestada pelo governo municipal liderado por José Luis Martínez-Almeida, que considera a declaração “lesiva” para os interesses da cidade.
A tapia, que se tornou um símbolo da repressão franquista, foi incluída entre três locais designados como lugares de memória democrática pelo governo central. O reconhecimento, além de ser um ato de reparação histórica, visa lembrar os quase 3.000 indivíduos executados entre 1939 e 1944, a muitos dos quais foram negados até mesmo um enterro digno.
Almeida, que seguiu as diretrizes da presidente da Comunidade de Madrid, Isabel Díaz Ayuso, opôs-se à sinalização da tapia, argumentando que o reconhecimento “reabre feridas” e gera divisão entre os cidadãos. Em dezembro, o consórcio municipal aprovou a decisão de entrar com uma ação judicial contra a declaração da tapia como lugar de memória, alegando que isso viola o dever de neutralidade da administração e distorce a imagem do cemitério como um local de memória.
Um documento enviado pelos serviços funerários de Madrid, que gerenciam os cemitérios municipais, confirma que o reconhecimento poderia causar “conflito social” e prejudicar a coesão da comunidade local.
A informação contida no relatório adverte que a designação da parede como um lugar de memória seria “absolutamente negativa” para a percepção do cemitério, que já possui um memorial dedicado às vítimas.
O Ministério de Política Territorial e Memória Democrática declarou que a relação da tapia com a história da repressão franquista é essencial, e que a memória das vítimas deve ser preservada. Entre as críticas ao governo municipal, está a que a gestão atual tem se mostrado insensível em relação à dor e ao sofrimento de milhares de famílias que buscam reconhecimento para seus entes queridos.
De acordo com Tomás Montero, presidente da Associação Memória e Liberdade e neto de uma das vítimas, há um apelo por dignidade e a necessidade de registrar a história de forma verdadeira e justa. "Não buscamos revanchismo, mas reconhecimento e verdade sobre o que aconteceu”, declarou em entrevista.
A discórdia em torno da designação da tapia não é um caso isolado. O governo Madrid se destaca por suas ações que reverteram ou sabotaram iniciativas de memória histórica, como o fechamento de memoriais e a remoção de placas que homenageavam as vítimas do franquismo. A administração atual também eliminou tributos que haviam sido aprovados anteriormente, incluindo placas em homenagem a figuras históricas removidas sob pressão de partidos de direita.
A controversa saga sobre a memória histórica em Madrid, que teve início com a ajuda de associações de defesa dos direitos humanos, destaca como a memória coletiva e a reparação histórica ainda são battlegrounds na política espanhola contemporânea.
Enquanto Almeida e seu governo tentam justificar suas decisões sob a bandeira da neutralidade, críticos argumentam que o direito à memória não deve ser negado e que é necessário dialogar sobre esses eventos traumáticos para que a sociedade evolua.
Ao mesmo tempo, o reconhecimento das vítimas do franquismo é um pedido crescente entre cidadãos ansiosos por promover um espaço de diálogo mais inclusivo. "A história não pode ser ignorada, e cada ato de silenciamento só perpetua o sofrimento das famílias afetadas. A memória não é um fardo, mas uma oportunidade para aprender e avançar como sociedade", conclui Montero.