Cardenal falecido é acusado de abusos sexuais na Colômbia

Por Autor Redação TNRedação TN

O falecido cardeal Pedro Rubiano, acusado de abusos sexuais na Colômbia.. Reprodução: Elpais

Cardenal falecido é acusado de abusos sexuais na Colômbia

O denunciante, que faz parte da investigação do El País, afirma que notificou por escrito a arquidiocese de Bogotá em 2021 e nunca obteve resposta.

Um homem identificado como Andrés denunciou na manhã desta segunda-feira em uma emissora de rádio que o cardenal Pedro Rubiano Sáenz, que faleceu em abril de 2024 e foi um dos líderes da Igreja Católica na Colômbia por décadas, abusou sexualmente dele em diversas ocasiões a partir de 1983, quando Andrés tinha 15 anos. O testemunho foi revelado poucas horas depois que o El País publicou um relatório com oito casos de supostos abusos cometidos por 13 sacerdotes e religiosos colombianos, que foi entregue ao Vaticano para investigação. O caso de Andrés faz parte desse dossiê, e a Arquidiocese foi consultada desde a semana passada, mas não respondeu até o fechamento desta matéria.

Segundo o relato de Andrés a Julio Sánchez Cristo, diretor do programa 6AM W, tudo começou em 1983, quando ele tinha 14 anos e foi expulso de casa por sua mãe, em Bogotá. Sem conhecer a cidade e sem recursos, buscou abrigo na Catedral Primada. Lá, um clérigo identificado nas investigações pelo nome de J.A.B.N. o acolheu na casa paroquial em Fontibón. Nessa mesma noite, começaram os abusos. “Em troca de comida, proteção e abrigo, ele começou com os abusos”, contou Andrés. “Primeiro me ofereceu cerveja e me masturbou. Com a fome que eu sentia, eu ficava embriagado facilmente com qualquer bebida.”

Foi esse mesmo clérigo quem, segundo a vítima, o apresentou ao cardenal Rubiano Sáenz na chegada ao estacionamento do Seminário Mayor de Bogotá. "Ele se sentou ao meu lado e queria me beijar os pés, me beijou as mãos, me masturbou e fez sexo oral em mim", relatou. Andrés disse que tentou resistir a uma penetração e reagiu com violência quando o outro clérigo chegou. Na época, ele tinha 15 anos. “Não consegui escapar, porque se eu fugisse, voltaria a viver nas ruas de uma cidade que não conhecia”, disse, indicando que foi ameaçado com isso. Os encontros com Rubiano se repetiram pelo menos duas vezes ao mês entre maio e dezembro de 1983, na casa paroquial da catedral de Fontibón, no oeste da capital colombiana.

A situação, de acordo com seu testemunho, se prolongou até 1989 ou 1990. Durante esse tempo, afirma que também foi utilizado para gerir os chamados “controles médicos” de outros jovens que os clérigos captavam em escolas paroquiais. “Nós éramos exibidos como carne, pois éramos como troféus”, afirmou. Quando deixou de ser, segundo suas palavras, “o menino bonito”, passou a cumprir essa função administrativa. As consequências em sua vida foram devastadoras: ele afirma que entrou no consumo de álcool e cocaína e não deixou esse ambiente até 1999.

Em 2000, aproveitando a abertura da Porta Santa do Jubileu, ele viajou ao Vaticano com uma passagem paga por um de seus agressores, a quem entregou uma caixa com fotos, vídeos e documentos que havia acumulado como provas contra ele. No entanto, deixou uma denúncia escrita na Poste Vaticane, dirigida a Joaquín Navarro-Valls, um dos colaboradores próximos de João Paulo II que falava espanhol, e deixou como contato a direção de sua tia em Bogotá. Nunca recebeu resposta, narra.

Vinte anos depois, em 2021, retomou as denúncias de forma formal, já que a arquidiocese havia aberto um escritório para lidar com esses casos: a Oficina de Bom Trato. A vítima conta que se reuniu com o cardenal Luis José Rueda Aparicio, atual arcebispo de Bogotá. Andrés detalha que o prelado segurou sua mão, pediu que escrevesse tudo à mão e prometeu ajuda jurídica, psicológica e econômica. “Ele viu que eu estava muito mal, pois não falava sobre isso havia muito tempo e quase desmaiei contando essas coisas”, relatou. Além de algumas terapias psicológicas, narra que a promessa ficou em nada: “Absolutamente nada, nada, nada. Silêncio total”.

Andrés também contatou a Nunciatura Apostólica, vários jornalistas e outros denunciantes. Entre os sacerdotes que ele acusa de não dar andamento a suas denúncias está o italiano Paolo Rudelli, nuncio na Colômbia entre 2023 e 30 de março passado, quando o papa Leão XIV o designou para o terceiro cargo mais importante no Vaticano. Andrés também afirma ter falado com o colombiano Luis Manuel Alí Herrera, que desde 2024 é secretário da Comissão Pontifícia para a Proteção de Menores.

Na Procuradoria colombiana, ele interpôs uma tutela para obter uma resposta e descobriu que nenhuma das instituições eclesiásticas que prometeram encaminhar sua denúncia havia feito isso. “Perdi três, quatro anos esperando e nunca fizeram nada”, disse em entrevista radial. Em suas declarações mais recentes, apontou ainda que o primeiro clérigo que o abordou foi assassinado em 2001, complicando ainda mais qualquer processo judicial.

“Isso aconteceu e não foi somente uma vez. E eu sei que existem muitas denúncias que foram encobertas porque nunca, nunca prosperaram”, disse Andrés sobre Rubiano. E acrescentou com amargura: “Quando fiz a denúncia em 2021, ele estava vivo. Em contrapartida, na Espanha denunciam um sacerdote de 90 anos e ele é convocado e solicitado a dar explicações. Aqui, o senhor passou despercebido e morreu.”

A Arquidiocese de Bogotá não respondeu a perguntas do El País sobre o caso de Andrés, que aparece no relatório entregue ao Vaticano, junto com outros sete testemunhos contra clérigos colombianos e 16 contra sacerdotes de outros países da América. Rubiano, que foi arcebispo de Bogotá entre 1994 e 2010, cardeal desde 2001 e um dos rostos mais conhecidos do catolicismo colombiano durante três décadas, faleceu sem nunca ter sido confrontado publicamente por acusações dessa natureza.

Andrés, agora com 57 anos, vive há décadas sem trabalho estável devido às consequências que descreve como “catastróficas” e até agora não conseguiu contar nada à sua família. “Sinto raiva, vergonha, impotência, ira, dor, pesadelos”, resumiu. “E o desejo de tirar a própria vida.”

Tags: Igreja Católica, Abusos Sexuais, Pedro Rubiano Sáenz, Colômbia, Direitos Humanos Fonte: elpais.com