O fenômeno climático conhecido como El Niño, que se caracteriza pelo aquecimento anômalo das águas do Oceano Pacífico Equatorial, tem gerado preocupações globais, especialmente com a possibilidade de um Super El Niño ocorrer em 2026. Meteorologistas estão comparando as condições atuais com as do ciclo de 1877 e 1878, quando um evento semelhante resultou em consequências devastadoras, afetando a segurança alimentar em várias regiões do mundo e causando a morte de milhões de pessoas, incluindo cerca de 500 mil no Brasil. Historicamente, o Super El Niño de 1877 foi o mais intenso já documentado, reduzindo em até 4% a população mundial da época.
As secas severas e as quebras de colheitas resultantes levaram a uma fome em massa, com estimativas de mortes variando entre 30 milhões e 50 milhões de pessoas. Para contextualizar, se essa taxa de mortalidade fosse aplicada à população atual, as perdas poderiam ultrapassar 250 milhões de vidas, um número maior do que a população brasileira atual. O impacto do Super El Niño de 1877 não se limitou à falta de chuvas, mas também foi exacerbado pela ausência de tecnologia agrícola e pela ineficácia das respostas políticas.
O historiador Mike Davis, em seu livro "Late Victorian Holocausts", descreve como a Inglaterra mantinha exportações recordes de grãos enquanto a seca devastava a produção de subsistência na Índia colonial. A falta de intervenção governamental em momentos críticos resultou em tragédias humanitárias em várias partes do mundo, incluindo a Fome do Norte da China, que causou a morte de milhões. No Brasil, a Grande Seca de 1878, resultante do Super El Niño, devastou a economia do Nordeste.
A escassez de chuvas levou ao colapso da pecuária e do cultivo do algodão, resultando em um fluxo massivo de retirantes em busca de água e trabalho. A gestão ineficaz dos recursos durante essa crise resultou em entre 400 mil e 500 mil mortes, representando cerca de 5% da população brasileira da época, estimada em 10 milhões. Fortaleza, a capital cearense, tornou-se um símbolo do fracasso em lidar com o impacto de eventos climáticos extremos.
A cidade, que tinha uma população de cerca de 30 mil habitantes, viu seu número triplicar com a chegada de migrantes. A falta de infraestrutura levou a uma epidemia de varíola, resultando em um colapso social e em um dia que ficou conhecido como o Dia dos Mil Mortos, quando mais de mil pessoas morreram em um único dia. A resposta política à crise foi lenta e ineficaz, com promessas de que "nenhum nordestino morrerá de fome" feitas pelo imperador Dom Pedro II.
A transposição das águas do Rio São Francisco, uma solução estrutural proposta, só começou a ser implementada em 2007, com atrasos significativos nas obras. Para 2026, as agências meteorológicas internacionais indicam uma probabilidade de até 80% para a formação de um Super El Niño. Embora os desafios atuais sejam diferentes dos enfrentados no século 19, devido a avanços tecnológicos e à globalização do comércio, a preocupação com a segurança alimentar persiste.
As tecnologias de previsão de safras e a infraestrutura logística global oferecem mecanismos de contingência que não existiam no passado, mas ainda há incertezas sobre a distribuição geográfica das chuvas. Os especialistas alertam que o problema não é apenas a quantidade de chuva, mas também o timing. A irregularidade das chuvas pode impactar negativamente as safras, especialmente em períodos críticos.
O aumento dos custos de produção no agronegócio pode resultar em um aumento significativo nos preços dos alimentos, com projeções de alta de até 15% nos custos de alimentação coletiva durante períodos de pressão climática. Diante desse cenário, o setor produtivo deve se preparar para um ambiente de incertezas e desafios, onde a capacidade de adaptação e resposta rápida será crucial para mitigar os impactos de um possível Super El Niño em 2026.